foto de Lara Rocha
NARRADORA – Era uma vez um terreno que ficava numa casa de campo. Nesse campo havia um ribeiro, onde inicialmente só viviam rãs e sapos, em paz, com as pessoas da casa. Os bichos não invadiam o terreno cultivado dos habitantes, nem estragavam as culturas, apenas ficavam na sua zona de habitação…as bermas do ribeiro…as pessoas não mexiam com eles, e até gostavam de os ouvir coaxar. Tudo corria bem, até que, chegou o Inverno, e com ele, uma série de tempestades, com trombas de água, chuvas fortes, trovoadas e ventos quase ciclónicos. A população estava muito assustada, pois aquela intempéria nunca tinha acontecido…quer dizer…sempre chovia e trovejava…e havia ventos, mas com tal intensidade, nunca! As tempestades levaram tudo à frente, até uns grilos: uns e umas, foram pelo ar, arrastados pelo vento, uns e outras foram levadas na corrente de chuva e lama que se formou…e uma família de patos também foi arrastada do sítio onde estava, para outros. Os bichos gritavam assustados e não se seguravam com a ventania e com a chuva, procuravam de todas as maneiras segurar-se, mas sem sucesso. Enquanto eram levados pela água e pelos ares, davam cambalhotas, enrolavam-se, batiam contra troncos e paus e até em pedras, mas mesmo mal tratados, lutavam desesperadamente para sobreviver. E conseguiram! No fim da tempestade, ainda com um céu assustador, e a arfar, muito assustados e até magoados foram todos parar ao terreno onde viviam os sapos e as rãs, que também sentiram um pouco a tempestade, mas conseguiram refugiar-se debaixo e em cima de um pequeno canal de pedra que servia de regadio aos campos. Os animais que foram arrastados, estavam perdidos, não faziam a mais pequena ideia onde estavam, levantam-se, olham em volta.
GRILO 1 – Eeeeeeeiiii….Acabou o pesadelo?
GRILO 2 – Desculpa decepcionar-te, mas não foi um pesadelo!
GRILO 3 – Tinhas que estragar tudo!
GRILO 2 – Quem?
GRILO 3 – Tu mesmo!
GRILO 2 – Mas…porquê?
GRILO 3 – A culpa é tua.
GRILO 2 – O que é que eu fiz?
GRILO 3 – Fizeste a tempestade!
GRILO 2 – O quê? (p.c) Não sou eu que faço as tempestades…não sou eu que mando no tempo.
GRILO 1 - O que é que se passa contigo, amigo?
GRILO 3 – Não foi um pesadelo…foi bem real! Nós…viemos arrastados na corrente.
GRILO 4 – Alguém sabe dizer onde estamos?
(Olham em volta)
TODOS – Em casa!
GRILO 4 – Em casa…?!
TODOS – Sim!
GRILO 1 – Nós passamos por um pesadelo…estávamos a sonhar…só pode ter sido.
GRILO 3 – Não! Nós não estávamos a dormir, nem sonhamos…! Viemos água abaixo!
GRILO 4 – Não estamos na nossa casa, pois não?
TODOS – Não!
GRILO 3 – A culpa é toda vossa!
GRILO 2 – Cala-te com isso…
GRILO 1 – Não liguem, amigos, ele deve ter batido com a cabeça…não sabe o que está a dizer…!
GRILO 4 – Bem…não percebi nada do que nos aconteceu…sei que…dei uma série de cambalhotas.
GRILO 1 - É simples…fomos apanhados numa tempestade.
TODOS – Óóóóhhh…!
GRILO 2 – E agora como vamos voltar para a nossa casa?
GRILO 4 – Pode ser que descubramos onde estamos e que vejamos se estamos perto ou não…!
GRILO 1 – Sabem de uma coisa…não sei onde estou, mas estou feliz por estar convosco, amigos, e por estarmos vivos…! O resto…vamos resolver quando der!
(Abraçam-se uns aos outros)
NARRADORA – Grande lição…é bem verdade! Que lindo…A amizade e o carinho e a união. Entretanto, as cigarras que foram arrastadas tossem sem parar…pousadas em Terra, sacodem as asas que não tocam e espirram, estremecem…os grilos que vieram pelos ares, caem no solo…levantam-se a gemer, esticam as asas, e as patas, e também não tocam, saltitam para sacudir a água, e caem de fraqueza. Os grilos de água vão ter com os outros e com as cigarras para os ajudar.
CIGARRA 1 – Mas…o que aconteceu?
CIGARRA 2 – Ai…não sei, mas acho que não foi boa coisa!
CIGARRA 3 – Parece que fiz uma maratona…!
CIGARRA 4 – Eu também! Estou tão cansada…!
CIGARRA 1 – Andei aos trambolhões…o resto não me lembro!
CIGARRA 7 – Eu…bati em várias coisas…não sei em quê.
GRILO 1 – Está alguém ferido?
(Todos olham-se e olham uns para os outros)
TODOS – Não!
GRILO 5 – Eu…acho que vim pelos ares!
GRILO 6 – Eu também…mas não conseguia ver nada!
GRILO 7 – Ainda estou atordoado!
GRILO 8 – Eu também.
CIGARRA 1 – Óóóóhhh…estou encharcada… (tosse) não consigo…tocar…quer dizer…cantar…ai…não…O que é que eu faço…?! (p.c) Esqueci-me!
CIGARRA 2 – Eu também não sei o que faço…
CIGARRA 3 – Nós…tocamos…e…cantamos…acho eu!
CIGARRA 4 – Sim…mas com esta água toda!
GRILO 5 – Como é que vamos tirar estes litros de água de cima de nós?
GRILO 6 – Não sei…também gostava de saber…porque…estou a ganhar gelo nas minhas asas…e nas minhas patas!
TODOS – Eu também!
GRILO 1 – Pessoal, estamos todos encharcados, mas lembrem-se…não perdemos ninguém, certo?
GRILO 2 – Vocês estão todos?
TODOS – Sim…certo.
GRILO 1 – Então…estamos vivos, certo?
TODOS – Sim…!
CIGARRA 5 – Se nos estamos a ver…acho que estamos vivos…em princípio…!
TODOS – Sim!
GRILO 1 (sorri) – Então…devíamos estar felizes!
GRILO 2 – Eu…estou todo esborrachado.
TODOS – Estamos todos!
CIGARRA 6 – Mas o grilo tem razão…nós fomos fortes…sobrevivemos àquela coisa que nos levou pelos ares e pela água.
GRILO 6 – Mas isso é bom…!
TODOS – Pois é!
GRILO 8 – Mas não sabemos onde estamos!
GRILO 1 – E o que é que isso importa, agora, neste momento?
TODOS – Importa.
GRILO 1 – Havemos de encontrar a saída…de ficar secos…e de recomeçar…se não for naquele sítio onde estávamos, será noutro qualquer.
TODOS – Sim!
CIGARRA 8 – Olha…e se nos abraçarmos uns aos outros…para ver se a água seca?
GRILOS (sorriem) – Boa!
GRILO 4 – Nós já nos abraçamos há bocado, por estarmos juntos e vivos…!
GRILO 2 – Mas abraçamo-nos outra vez!
TODOS – Claro!
CIGARRA 3 – Pode funcionar!
GRILO 1 (sorri) – Estou muito feliz por vos reencontrar queridas cigarras!
CIGARRAS (sorriem) – Nós também…!
CIGARRA 6 – Eu faço qualquer coisa para recuperar o meu…cantar…ou…o que toco…não sei bem!
TODAS – Eu também!
NARRADORA – Abraçam-se uns aos outros, as cigarras e os grilos. Dão abraços bem apertados, cheios de carinho, amizade e sinceridade. Abraçam-se até passar por todos, sorriem, felizes. E esta foi uma grande ajuda! O calor do carinho, da amizade e dos abraços secou uma grande quantidade de água das asas…e já conseguem fazer algum som…a amizade e os sentimentos eram tão verdadeiros que até o sol voltou a brilhar. Todos festejam alegremente.
CIGARRA 7 (sorri) – E se…dançarmos?
TODOS – Boa!
NARRADORA – Começam todos a dançar, abanam bem as patas e as asas e recuperam os sons totalmente. Ouve-se os seus sons com nitidez. Os dois casais de sapos e rãs, observam os bichos a dançar e a fazer uma barulheira…
RÃ 1 – Mas o que é isto?
RÃ 2 – Não sei…acho que são animais!
RÃ 3 – Parece uma manifestação…!
RÃ 4 – Será algum ritual?!
RÃ 1 – Huuummm…não me parece!
RÃ 2 – Eu nunca vi daquelas coisas por aqui…!
RÃ 3 – Eu também não…de onde raio terão vindo.
RÃ 4 – Se calhar perderam-se na tempestade!
RÃ 1 – São muito estranhos…!
RÃ 2 – Isto estava tão sossegado…!
RÃ 3 – Achas que são novos vizinhos?
RÃ 4 – Ai, espero bem que não! Ao menos que estejam só a festejar alguma coisa, ou a protestar, porque se vem para aqui morar…ai, ai…! Vamos ter problemas.
TODAS – Pois vamos.
SAPO 1 – Mas que raio é isto?
RÃ 1 – Era isso que estamos aqui a tentar descobrir…!
RÃ 2 – Conhecem?
SAPOS – Não!
SAPO 2 – Novos vizinhos…? Não posso acreditar…!
SAPO 3 – Parece um bando de malucos, de uma tribo qualquer…ou um bando de macacos aos guinchos e pinchos…ou…ETS…!
SAPO 4 – Espero que não tenham tido a infeliz ideia de vir instalar-se aqui!
SAPOS E RÃS – Também acho!
SAPO 1 (a brincar) – Ainda se fossem gajas jeitosas…!
(Os sapos riem, mas as rãs não acham piada, e abanam a cabeça).
SAPO 1 (embaraçado) – Claro…não há rã mais bonita, que a minha…com todo o respeito pelas outras…a minha é a melhor de todas!
RÃ 1 (zangada) – Mau era!
SAPO 1 (sorri) – Tu sabes que és a melhor, meu amor…minha princesa sapeca…! Linda…!
(As rãs riem)
RÃ 1 (a rir) – Pois, pois…e eu nasci ontem…!
SAPO 1 (sorriso malicioso) – Só estava a dizer aquilo, porque sempre seria mais agradável para nós, ver…e termos como vizinhos…uns iguais a nós…!
TODOS – Pois…claro…!
RÃS – Claro, claro…!
RÃ 3 – Cruzes…só fazem barulho!
SAPO 3 – Deve ser algum daqueles festivais de Inverno, não…?
TODOS – Aqui…?
RÃ 4 – Nem me digas uma coisa dessas…esses festivais deixam – me louca!
RÃS – A mim também!
NARRADORA – Passa a família de patos, com os filhotes, muito aflitos e assustados. Os sapos e as rãs observam em silêncio. Os pais patos contam os filhos todos, várias vezes. A pata está estafada e para quase a boiar.
PATA – Ai…! O que nos aconteceu?
PATO – Fomos apanhados numa tempestade.
PATA – Acho que não estou inteira…! Mas se estamos todos, estou mais descansada.
PATO – O que te falta…?
PATA – Além do meu coração…acho que me faltam partes do corpo…!
PATO – Falta-te o coração…mas…mas…tu estás aqui, a falar connosco…e a mexer…!
PATA – Querido, é uma forma de expressão, para transmitir a minha tristeza…o meu coração ficou lá…! Entendes?
PATO – Acho que sim! Eu também não estou feliz…está-me a custar muito, porque eu gostava mesmo daquele sítio…ainda tenho esperança de voltar a reencontrar aquele sítio! Depois de passar esta tempestade…! (p.c) Talvez não estejamos longe.
PATA – Não faço a mais pequena ideia…
PATO – Não te preocupes, princesa…tens tudo no sítio e continuas linda e jeitosa como sempre!
PATA (ri) – Óh, meu anjinho…és sempre o mesmo sedutor, engatatão…! Nem depois do susto que passamos hoje, tu apagas essa fogueira de paixão por mim.
PATO (ri) – Claro…és a minha mulher! Agora ainda mais porque estou vivo e porque estamos todos juntos com os nossos tesouros...
PATA (sorri) – Tens razão, amor.
PATO (sorri) – Sem casa não ficamos garanto-te!
RÃ 1 – Mais intrusos…?
RÃ 2 – Ai, não…!
RÃ 3 – O que é que estes estão aqui a fazer no nosso território, também?
RÃ 4 – Mas que chatice…não há paz…?
SAPO 1 – Óh, sorte…!
SAPO 2 – Esperem…estes podem ser da casa.
SAPO 3 – Pois…os senhores tem uns parecidos…!
SAPO 4 – Se forem dos senhores, temos de nos calar e deixá-los.
RÃ 1 (grita) – Eeeeeeeiiii…peludos…aí da água…!
RÃ 2 – Não são peludos…acho que são escamosos, ou lá o que é aquilo que os cobre…!
RÃ 3 – Até parecem pássaros…
RÃ 4 – Aqueles…corvos, ou…abutres…?
(As rãs e os sapos começam a coaxar em coro. Os patos olham).
PATO – Estão a falar connosco?
TODOS – Sim.
PATO – O que é que querem seus monstros do lodo…?
RÃ 2 – O que é que tu nos chamaste…? Repete lá…?
PATO – Ogres…viscosos…monstros do lodo…!
SAPO 4 – Ai, ai, ai, ai…! Que falta de respeito pelas senhoras.
PATO – Olha, olha…tens uma moral para falar…!
SAPO 4 – Tenho o quê?
PATO – Não tens vergonha nas fuças…!
SAPO 4 – Eu…? Vergonha…? De quê? Sempre fui um borracho! Tenho muito orgulho em ser como sou.
PATO – Disseste que eramos o quê, óh sapalhona sem vergonha…?
RÃ 1 e 2 – Peludos…escamosos…!
PATO – Não temos escamas, nem pêlos…! Temos penas.
RÃ 2 – Não interessa…! Queremos saber o que é que estão a fazer aqui…na nossa casa!
PATO – Desculpem…?
PATA – Na vossa casa…? Desde quando?
RÃ 3 – Isso perguntamos nós! (p.c) Quem é que vos autorizou a entrar aqui…a invadir descaradamente o nosso território?
PATO – O quê?
RÃ 4 – Sim, vocês apareceram aqui, caídos sabemos lá de onde…mas nós sempre estivemos aqui!
PATO – Estou a ver que têm uns cornos muito grandes…são tão grandes que mais ninguém cabe aqui não é?
SAPOS E RÃS (indignados) – Áááááááhhhh…! Cornos…?! Nós…?
PATOS – Sim.
(Os sapos e as rãs olham uns para os outros)
SAPOS E RÃS – Cornos…? Onde…?
RÃ 1 – Vocês andam-nos a trair, é, seus tarados?
SAPOS – Claro que não…!
SAPO 1 – Como é que vos andamos a trair se não saímos daqui, da vossa beira…!
RÃS – Isso não quer dizer nada…
RÃ 2 - Também não andamos sempre enganchados…
PATO – Ai, santas ignorâncias…além de escorregadios, nojentos…ainda são burros que nem calhaus…!
PATA (indignada) – Devem achar que têm um rei na barriga…! Não vimos placa alguma a dizer que isto tinha dono, muito menos a dizer que os donos eram sapos e rãs! (p.c) Nós nem sabemos onde estamos, nem como viemos aqui parar!
TODOS (irónicos) – Coitadinhos…
SAPO 2 – Dá muito jeito não se saber certas coisas…principalmente quando não assumimos que invadimos propriedade alheia…!
SAPO 3 – Foram apanhados com a boca na botija…agora estão a inventar desculpas esfarrapadas para ficarem bem na fotografia…!
PATO – Onde está a máquina fotográfica…?
PATA – Vocês são uma coisa horrível!
SAPOS E RÃS (a rir) – Obrigada, obrigado…nós sabemos!
SAPO 1 – Vamos fazer queixa de vocês!
PATOS (indignados) – O quê?
PATA – A quem?
SAPO 1 – Aos donos desta casa, por invasão de propriedade alheira…
RÃ 1 – Alheia…idiota…propriedade alheia!
SAPO 1 – Ou isso…
PATO – Façam…pode ser que eles saibam dizer onde estamos!
PATA – Nós fomos arrastados pela chuva! (p.c) Viemos parar aqui…que nem sabemos onde é! Nem se estamos longe ou perto da nossa antiga casa…!
RÃS – Que tristeza…!
PATA – Sim, é verdade!
RÃ 3 – Então devem pertencer ao grupo daqueles maluquinhos que estão ali aos pinchinhos e guinchinhos…a fazer uma barulheira infernal.
NARRADORA – Os patos chamam os grilos e as cigarras, e vão para terra. Reconhecem-se, e cumprimentam-se alegremente, e os patos também começam a grasnar, as cigarras e os grilos cantam alegremente. Os sapos e as rãs protestam e coaxam barulhentamente e instala-se a confusão. Os sapos e as rãs gritam…
SAPOS E RÃS – Fora daqui…rua…xôôôôôôô…!
SAPO 1 – Malditos…!
SAPO 2 – Ponham-se a andar…!
SAPO 3 – Seus descarados…
SAPO 4 – Invasores miseráveis!
RÃ 1 – Vão fazer barulho para outro lado.
RÃ 2 – Fooooooorrraaaaaa…!!
NARRADORA – Há gritos, troca de insultos, encontrões, algumas sapatadas e bicadas e patadas, e luta. De repente, uma linda borboleta que também vivia numa flor desse território grita muito zangada:
BORBOLETA – Caaaaaaaaaaaaaaaaaallllleeeeeeeemmmmmmm – seeeeeeee…..!
NARRADORA – Faz-se silêncio e todos olham para a linda borboleta, que está com cara de má, e de mãos fechadas, preparada para bater se for preciso. Eles nunca viram uma borboleta naquele estado…completamente fora dela.
SAPO 1 (surpreso) – Quem és tu?
BORBOLETA (grita) – Não vês o que é que eu sou? (p.c) Nem com esses olhos enormes, quase a sair de órbita? (p.c) És mesmo muito ignorante, se não sabes o que é que eu sou!
SAPO 1 (assustado) – Aparentemente és uma borboleta!
SAPO 2 – Pareces mais um monstro!
BORBOLETA (grita) – Não quero saber o que é que tu achas de mim…pensar o que quiseres! (p.c) Eu quero saber é que raio de confusão é esta aqui…?!
SAPO 3 – Estes invadiram o nosso território!
BORBOLETA – Quem?
RÃ 1 – Estas coisas! Com pernas…e…asas!
BORBOLETA – Não são coisas…são animais! Patos…e…cigarras e grilos! (p.c) Porque é que vocês, seus sapóides horríveis, se vieram meter com eles? (p.c) Eles estavam a mexer convosco?
SAPOS E RÃS – Não!
SAPO 1 (resmunga) – Estavam a fazer um barulho infernal.
CIGARRA 1 – Nós só estávamos a cantar!
GRILO 2 – Pois…estes é que não sabem apreciar o que é música…e o que é bonito de se ouvir.
GRILO 1 – Estávamos a festejar por estarmos vivos…bem…e juntos!
CIGARRA 2 – Sim, porque escapamos à tempestade…quer dizer…fomos mudados de sítio, arrastados pelas águas e pelos ventos…andamos às cambalhotas, mas não tivemos problemas de mãos e chegamos todos ao mesmo lugar, estamos juntos!
BORBOLETA (sorri) – E isso é mesmo motivo para festejar!
RÃ 3 – Mas podiam ir festejar para outro sítio!
SAPO 4 – Pois! E não para o nosso terreno.
BORBOLETA – E se isso acontecesse convosco…se fossem vocês os arrastados pelas águas e pelo vento, e fossem parar a outro sítio qualquer…onde existissem uns monstros verdes…como vocês estão a ser…e vos expulsassem…? (p.c) Acham bem o que estão a fazer, seus ogres? (p.c) Parecem sapos saídos das cavernas (p.c) que coisa mais feia…seus…insensíveis!
RÃ 4 – Mas você também não gostava com certeza que estas aberrações invadissem a sua Terra pois não?
BORBOLETA (zangada) – Óh, coisa escorregadia…! Desde quando é que a Terra tem dono? E logo vocês… (p.c) Os donos desta terra onde vocês se instalaram, são os humanos, e nem por isso eles vos expulsam. (p.c) Porque é que estão feitos esquisitos? (p.c) Deviam receber bem estes amigos? (p.c) Eu estou aqui muito, muito tempo antes de vocês existirem…e nem por isso vos chutei.
RÃS E SAPOS – Eles não são amigos!
BORBOLETA – Porquê? Fizeram-vos algum mal?
RÃS E SAPOS – Não!
BORBOLETA – Então…? (p.c) Claro que não são amigos…nem inimigos! (p.c) Até devem ser bons amigos, só que vocês, com essa arrogância e superioridade…sem qualquer razão para a ter… nem se preocupam em falar com eles, em saber coisas deles, em acolhê-los…não viram o exemplo deles?
Rã 2 – Eles são muito diferentes de nós!
BORBOLETA – E só por causa disso, não merecem a vossa amizade, simpatia e acolhimento? (p.c) Mas que grandes convencidos? (p.c) Vocês também são todos diferentes dos vossos amigos…se é que os têm!
RÃS E SAPOS – Sim…!
BORBOLETA – Porque é que eles são diferentes?
SAPO 1 – Porque nós somos sapos e rãs…anfíbios, e eles têm…penas…e…asas!
BORBOLETA – E depois? (p.c) Temos de ser iguais aos nossos amigos?
SAPOS E RÃS – Não!
BORBOLETA – Então…? (p.c) Porque é que não fazem todos uma festa para falarem e conhecerem-se.
GRILOS, CIGARRAS E PATOS (sorriem) – Excelente ideia!
SAPOS E RÃS – Huuuuummmm…
GRILO 1 – Tenho uma ideia melhor…e que tal…assistirem a um concerto nosso?
SAPOS E RÃS – Huuuuummmm…
SAPO 1 – Barulho?
GRILO 1 – Façam o seguinte…sentem-se por aí, e ouçam a nossa voz linda…vão adorar!
BORBOLETA – Claro…! Isso mesmo! (p.c) Ouçam…calados, e até podem fechar os olhos.
SAPOS E RÃS (sorriem) – Está bem!
RÃ 1 – Podemos experimentar…mas se não gostarmos, vocês vão fazer barulho para outro lado!
BORBOLETA – Vamos ver quem é que vai fora! (p.c) Por favor, amigos…cantem…!
NARRADORA – Os sapos e as rãs sentam-se, vaidosos e desconfiados. Os grilos e as cigarras olham-se, combinam ligeiramente o que vão tocar, e cantam maravilhosamente, coordenados, em separado e em conjunto, muito afinados, e com suavidade, formam um coro delicioso! Parece uma música de fadas, com instrumentos feitos só com os seus recursos: asas, e patas…As rãs e os sapos estão boquiabertos, surpresos e deliciados com as músicas. Deixam-se levar pelas canções e pelos sons das cigarras e dos grilos, ficam embalados, batem muitas palmas e de repente, um grilo sugere:
GRILO 1 – Gostaram?
SAPOS E RÃS – Adoramos!
SAPO 1 – Uuuuuuuuaaaaaaaaaaaaaaauuuuuuuuuuuu…!
SAPO 2 – Maravilhoso…
RÃ 1 (sorridente) – Que doçura!
RÃ 2 (sorridente) – Até ainda estou arrepiada de emoção…que lindo…!
GRILOS E CIGARRAS (sorriem) – Obrigado! Obrigada!
GRILO 2 – Olhem…não querem experimentar cantar connosco?
BORBOLETA (sorridente) – Sim…sim…façam isso!
RÃS E SAPOS – Vamos a isso…!
NARRADORA – E sem combinarem os sapos e as rãs começam a coaxar em conjunto e de forma coordenada, com os grilos e com as cigarras, e os patos servem de plateia, completamente rendidos, e deixam-se contagiar pela música, grasnando baixinho e abanando os corpos e as patinhas. A borboleta está encantada e dança feliz, bate palmas.
BORBOLETA – Que coro tão bonito! (p.c) Todos batem palmas a sorrir. (p.c) E se agora entrarem os patos…querem?
PATOS (sorriem) – Sim…!
PATO – Mas não vamos estragar?
TODOS – Não!
BORBOLETA (sorri) – Tenho a certeza que vai funcionar na perfeição…vai ficar…liiiiiiiiiiiiiiiiinnnnnnddddoooooo…! Ainda mais do que já era!
GRILO 1 (sorri) – Juntem-se aqui…vamos experimentar…primeiro…sapos e rãs…depois nós…depois…patos…e depois cigarras!
NARRADORA – Experimentam de várias maneiras, misturando vozes, divertidíssimos e encaixam na perfeição, o que constrói melodias encantadoras. A borboleta aprecia e sorri encantada, maravilhada, deliciada…bate muitas palmas, e diz.
BORBOLETA (sorri) – Que coro tão bonito! Estão a ver sapecos…? Vozes todas diferentes fizeram aqui músicas de embalar…lindas…doces…que bom que foi este momento de paz…! Estão a ver como podem muito bem viver no mesmo sítio, seres tão diferentes, e ser amigos?
TODOS (sorriem) – Sim! Pois é!
SAPO 1 – Pronto, está bem…convenceram-me! Podem ficar! (Os sapos e rãs pedem desculpa)
BORBOLETA – Se não deixasses tu, deixava eu!
NARRADORA – E a partir deste dia, sapos, rãs, cigarras, grilos e patos passaram a conviver alegremente com respeito e amizade uns pelos outros no mesmo território, e charco. Cantava, juntos todas as noites, fizeram almoços e jantares nas casas uns dos outros, ajudavam-se quando precisavam e tinham plateia para os ouvir: os donos da casa que os ouviam todas as noites, nas janelas e no campo; e outros animais da quinta que andavam à solta, como passarinhos, cães, gatos, às vezes os cavalos e lobos, as toupeiras, as formigas e as raposas…todos adoravam as músicas, os sons e as canções que produziam, batiam muitas palmas, dançavam e brincavam (p.c) Dava gosto viver naquele sítio, onde a amizade, o respeito e a música reinavam, e tornaram tudo tão bom! Viva a amizade e o respeito pela diferença…aliás…todos somos diferentes, mas se formos bons uns com os outros, podemos conhecer-nos, descobrir muitas coisas em comum e sermos felizes!
FIM
Lálá
(5/Agosto/2012)
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