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sexta-feira, 25 de março de 2016

Libertação (adultos)

Uma mulher que foi maltratada pelo marido fala da sua experiência a outras mulheres:

foto de Lara Rocha 

        Olá, ouvintes...posso dizer que hoje é um dos dias mais felizes da minha vida! Primeiro, porque acordei de coma, e depois, porque me libertei. É. Estive em coma, por causa do homem primitivo com quem casei! 
       É. Ainda hoje penso comigo mesma...como pude juntar-me àquele monstro? E monstro é um termo carinhoso. Onde é que eu estava com a cabeça? Acho que era ele que a tinha, e fazia de mim um robô. 
       Como pude ser tão ingénua, e acreditar nas palavras bonitas que ele me disse…? Como pude aguentar tanta chapada e sempre a acreditar que ele ia mudar...eu arranjava desculpas para o que ele me fazia...sem nunca perceber o tamanho do monstro que vivia debaixo do mesmo teto que eu! Porque ele pedia sempre desculpa, depois de me bater, e eu...feita …ou...mulher apaixonada...acreditava...caía como um patinho. 
    Como pude ouvir as mentiras todas que ele me dizia…? Não entendo! Acho que ele comandava mesmo a minha cabeça e todo o meu ser, e eu nem me apercebia...iludia-me descaradamente, e eu acreditava. 
    Primeiro...uma chapada...e passou quase despercebida, como estávamos na véspera de casamento, pensei que estaria nervoso, e compreendi. Pediu-me desculpa, e eu perdoei. Passou. 
    Uns dias depois de casarmos, sua monstruosidade, começou a deitar as garras de fora: uma chapada aqui, outra chapada ali, como se fossem carinhos provocadores, a que se seguiam beijos e abraços, e risos...e pedidos de desculpa...desculpa amor...entusiasmei-me…! - Dizia - me ele...e eu...acreditava, e deixava-me levar. 
      Depois, começou a mostrar-se muito possessivo, e louco de ciúmes, sempre que me via a falar ou a rir ao telemóvel com as minhas amigas, e com os meus pais...bateu-me várias vezes, com chapadas, pontapés, cinto e puxa-me pelos cabelos, levando-me a rastos pelo chão até ao quarto. 
       No quarto, a porrada continuava...chapadas, murros, pontapés, ficava toda negra. Pedia-me desculpa, e eu, mais uma vez, e outra, e mais outra vez, perdoava. Parecia que estava anestesiada.
    À frente dos outros, ele era o exemplo de marido, mas dentro da nossa casa, transformava-se, e tudo começava de novo: proibia-me de falar ao telefone e ao telemóvel, proibia-me de falar e sair com as minhas amigas, fechava-me em casa, levava as chaves e o meu telemóvel com ele, desligava o telefone de casa para eu não poder falar...basicamente, fechou-me como se fecha um animal na jaula. 
        Comecei a ficar deprimida, e de dia para dia...afundava-me cada vez mais, passei a ser uma boneca de madeira nas mãos dele. Tudo me doía...mas eu não conseguia falar, quase nem comer. Ficava tão ferida, que nem saia à rua. 
      Deixou-me marcas no corpo todo, deu-me facadas, e a última vez...a gota de água, depois de ter provocado um traumatismo craniano, ainda me partiu as pernas e um braço, e atirou-me da janela abaixo...o cobarde fugiu, mas felizmente, os vizinhos encontraram-no rapidamente. 
      Mais cedo ou mais tarde, eu ia mesmo atirar-me, na tentativa de fugir, e denunciar aquele maldito, estava cansada, sem forças...quase na pele e no osso, e cheia de marcas, dos maus tratos que ele me dava. Talvez a fuga corresse mal, mas mal por mal...era melhor do que levar mais dele. 
      Felizmente, o rinoceronte foi preso na mesma hora, os vizinhos deram-lhe uma bela tareia nesse dia, e eu vim para o hospital. Não me lembro desse momento. Dizem que estive muito mal, mas felizmente, recuperei e estou aqui, para contar a história, e para dizer às mulheres...Não permitam que vos mexam num fio de cabelo vosso, se não quiserem. 
      Não pensem que ele vai mudar. Infelizmente nunca mudam, só para pior. Não se deixem levar pelos poucos momentos de carinho que eles até parecem mostrar, nem perdoem à primeira. Isso é o que eles querem, para poder controlar tudo...todo o nosso ser fica dominado por eles, e depois, nós é que apanhamos. 
      Nunca! Nunca mesmo. Não permitem que ele vos levante a mão...ao primeiro sinal de agressão dele, é a hora certa de saírem das garras desses primitivos pré-históricos. Denunciem a primeira coisa de mal que ele vos faça...não tenho medo! Defendam-se, peçam ajuda. 
      Não precisam de viver com um homem pré-histórico. Nós mulheres, merecemos ser bem tratadas. Não se fiem que os homens são ciumentos porque vos amam...nada disso! São ciumentos e possessivos, é porque não estão bem com eles próprios, ou não confiam em nós. 
    E o amor é confiança, não é ciúme, nem violência. Libertem-se das garras desses malditos, enquanto ainda são capazes de pensar por vocês, enquanto ainda são mulheres, num corpo humano, que têm, de mulheres...não esperem que eles tomem conta do vosso cérebro, depois das chapadas, com os carinhos superficiais e pedidos de desculpas...Palavras leva-os o vento. 
    O amor não é posse, nem prisão, por isso, quando se sentirem presas ou como posse...libertem-se! Afirmem-se! Mostrem o vosso lado demoníaco, que pode ser pior que o dele, se precisarem. 
     Não permitem é que as coisas avancem até não ter mais saída. Amem-se a vocês mesmas! Primeiro vocês, depois vocês, e só vocês, sempre! Primeiro a vossa vontade, primeiro o vosso respeito por vocês mesmas, e exijam-no em relação a vocês mesmas...e depois, a vossa força de mulheres! 
  Não somos bichos para estar numa jaula, nem marionetas para estarmos penduradas...muito menos, coisas para não podermos falar, e não fazermos mais nada, a não ser estar dependentes deles, para estarmos submetidas a eles, e eles fazerem tudo o que querem connosco, usarem-nos, tratarem-nos como objetos, e como lixo. 
     Abram os olhos, mulheres! Não existem príncipes encantados...o único que pode ser mais próximo de um príncipe, é alguém que vos ame, um homem que vos liberte, que vos respeite, que vos trate com delicadeza e confie em vocês! Mesmo que seja um pequeno sapo, desde que tenha conteúdo interior e cerebral...é esse o vosso príncipe...será esse o que vos vai amar, respeitar, e deixar voar, esperando por vocês! 
      Abram os olhos, mulheres, e todos os sentidos...há sempre os sinais de alerta que já vos falei. À primeira suspeita...Xau aí,...Não precisamos de homem para sermos femininas e felizes! 
     Não precisamos de homem para sabermos o nosso valor, e as nossas qualidades, aquilo que queremos, e que é o melhor para nós. Não precisamos de um homem que nos sustente...nem de um homem para nos sentirmos preenchidas. 
        Como pude permitir a mim mesma sofrer tanto nas garras daquele pré-histórico? Como pude deixar que ele tomasse conta do meu cérebro? Como pude sujeitar-me a uma besta? Talvez tenha sido por sonhar com o príncipe encantado, e que ele seria o homem da minha vida. 
       Não se deixem conquistar pelas palavras bonitas. Somos mulheres, e nascemos para sermos felizes, livres, respeitadas, amadas, bem cuidadas. Agora...hoje...sou uma mulher diferente. Depois do que passei, sinto-me renascida, fortalecida, madura! Se fosse agora, tudo seria diferente, e as coisas não teriam chegado a este ponto. 
        Mas não queiram ter de chegar a este ponto, para ganharem consciência da realidade, e do que é o amor! Acordem, antes de se envolverem num pesadelo. Como eu, há muitas mulheres...gostava de lhes poder contar a minha experiência, e acordá-las para o que são...Mulheres! E como têm de ser tratadas. 
       Como pude permitir que nas tuas mãos fosse sempre um brinquedo, uma coisa, uma pedra, um boneco de madeira. Nas tuas mãos senti a minha vida a desfazer-se, nas tuas mãos a minha alma deixou de respirar, nas tuas mãos as minhas lágrimas secaram. Nas tuas mãos a minha boca esqueceu-se de como sorrir, nas tuas mãos a minha cabeça deixou de pensar. 
        Nas tuas mãos, todo o meu corpo deixou de ser o meu corpo, nas tuas mãos deixei de saber quem era, nas tuas mãos...simplesmente não era nada! Agora, que me libertei das tuas mãos, a minha alma voltou a nascer, a respirar, o meu corpo voltou a ser meu. A minha cabeça voltou a funcionar, a minha boca voltou a saber sorrir! Agora que me libertei das tuas mãos...sou eu! Eu, eu. 
     E penso: como pude estar tanto tempo nas tuas mãos, duas foices que me seguravam, dois chicotes que me fustigavam, duas facas que me cortavam, duas pás que me torturavam. Como pude permitir ficar nas tuas mãos? Como pude deixar de viver para me entregar às tuas mãos? 
      Mãos...que irónica, que ilusão minha, que injustiça chamar de «mãos», se tivesses mãos, elas segurariam as minhas, com delicadeza e carinho. Se tivesses mãos, elas abraçavam-me com fogo e ternura. 
      Se tivesses mãos, elas cortariam flores para me oferecer, ou colocariam um anel no meu dedo. Se tivesses mãos, elas acariciariam os meus cabelos e a minha pele. Se tivesses mãos, elas pegariam em mim ao colo...e jamais me bateriam ou matariam. 
     Se tivesses mãos, nunca me prenderiam, se tivesses mãos...como pude desejar estar nas tuas mãos? Porquê? Porquê? Porque é que as tuas mãos, não são mãos? Agora que me libertei das tuas mãos assassinas, digo a todas as mulheres...mulheres: livrem-se das mãos assassinas, mãos que nos amam, são usadas para nos tratar com carinho, como merecemos.
     Mãos que nos amam, amparam as nossas mãos, beijam-nas, acariciam-nas. Mãos que nos amam, respeitam-nos, mãos que nos amam, oferecem-nos flores, mãos que nos amam, sussurram-nos ao coração. 
    Mulheres...recebam mãos que vos amam, mãos que vos acolhem, mãos que vos deixam respirar, mãos que vos valorizam, queiram apenas mãos que tocam com todo o seu ser. Agora...longe das tuas mãos sou uma verdadeira mulher! Agora...sem as tuas mãos, sei quem sou, sei o que quero, sou eu, uma nova mulher! Aquela mulher que nunca fui. 
    Vamos, MULHERES...temos de nos unir mais, e lutar contra pré-históricos que querem acabar connosco. Esqueçam essa ideia de que: entre marido e mulher, ninguém mete a colher...nunca foi verdade, nem faz qualquer sentido, no caso de mulheres mal tratadas.
    ACORDEM MULHERES...SEJAMOS UMAS PARA AS OUTRAS...juntas podemos tudo! Sempre que tiverem conhecimento de casos de violência doméstica denunciem sem medo...antes que seja tarde demais. Espero que aquela besta apodreça na cadeia, que seja torturado pelos outros. 
       Não sei quando as dores irão passar, mas sei que vou ser forte, porque já sou livre, e sei o valor que tenho. Ainda vou ficar aqui mais algum tempo para recuperar, e ajudar outras mulheres que passem pelo mesmo. Mas ACORDEI! Isso é o mais importante...e o meu desejo sincero é que daqui para a frente, muitas mais mulheres acordem. 

FIM 
Lara Rocha 
26/Agosto/2014 

Homossexualidade e depois...? (Dramatização contra a homofobia e preconceito)



Duas adolescentes no secundário: Mára e Nára 

Para pequena dramatização 

Uma rapariga da turma viu Mára (homossexual) a trocar beijos com outra amiga num bar à noite. Na segunda feira espalha pela turma, e começam os problemas para Mára. A sua melhor amiga é Nára. Também Nára fica mal vista pela turma, até que um dia tudo muda. 

                                        Cena 1 

Mára não viu que estava a ser vista. De manhã, Fábia espalha pelos colegas que viu Mára com outra aos beijos. Fábia manda beijos para Mára. Mára sorri mas não entende porquê.

Passa um colega por ela e manda-lhe beijos. 

MARCO - Fofinha! 

MÁRA (sorri) - Obrigada. Tu também.

MARCO - Eu...? Deves estar a ver mal...eu sou muito homem...

MÁRA - Também não disse que és mulher, disse que és fofinho! É um elogio.

MARCO (gargalhada) - Ai,que linda...fofinha...

MÁRA (sorri) - Tu hoje estás cheio de açúcar... 

MARCO (ri) - És mesmo daaaaaaahhhhhhhhhh

MÁRA - O quê? 

MARCO (ri) - Nada, esquece. 


                                  Cena 2 

(Vai ter com outros colegas que estão em roda e pergunta) 

MARCO - Ei, meus...já sabem? 

TODOS - O quê? 

MARCO - Temos aqui uma lésbica na turma.

TODOS - O quê?

MARCO - Yá. 

TODOS - Quem? 

MARCO - Aquela...a Mára.

TODOS - A Mára? 

MARCO - Sim.

ZÉ - Não pode ser.

ANDRÉ - Ela é tão gira...

MARCO - É, mas gosta de gajas.

LUIS - Como é que sabes?

MARCO - Eu até a comia, mas assim...

FRED - Que nojo...

CARLOS - Porca.

ABEL - Devias ir presa.

NUNO - Como é que sabes?

MARCO - A Fábia disse que a viu nos comes com outra gaja, num bar.

TEODORO - Óh, isso não quer dizer que seja lésbica...se calhar já estava bem bebida, e depois ficou mais passada...

DIOGO - Achas?

TEODORO - Ya...entre as gajas é normal haver essas cenas, e não sentem nada...

NUNO - Não sentem nada...e comem-se assim? 

TEODORO - Ya. A minha irmã faz essas cenas com as amigas, e tá-se bem, mas ela tem namorado.

FRED - Nunca mais me chego a ela...

CARLOS - Não deve pegar-se. Achas que a Nára tem alguma coisa com ela? 

MARCO - É capaz.

HUGO - Ya, anda sempre com ela. 

DAVID - Eu acho que elas até fazem um par giro...nem ela nem a outra servem para mim. 

MARCO - Eu até lhes dava umas trinquitas...mas depois de saber...que nojo. 

                                       Cena 3 

(Mára chega. As duas amigas cumprimentam-se, com abraço e beijos) 

MÁRA - Estou a sentir-me estranha...

NÁRA - Estranha porquê? 

MÁRA - Acho que estão todos a falar de mim, e a olhar para mim.

NÁRA - Porquê? 

MÁRA - Não sei. 


NÁRA - Óh, não ligues. 

(Fábia vai ter com Nára) 

FÁBIA - Nára...posso falar contigo, só uns segundos...? Em particular se não te importas...É para...me emprestares o caderno de Inglês, para eu tirar cópia, posso? 

NÁRA - Sim, está bem. 

                                       Cena 4 
(Dentro da sala, Nára empresta o caderno e Fábia diz-lhe baixinho) 

FÁBIA - Olha, e já agora...tem cuidado com essa tua amiguinha...

NÁRA - Qual? Tu?

FÁBIA - Eu não...eu sou tua amiga, e podes confiar em mim, tu sabes disso...estou a falar da Mára. 

NÁRA - Porque é que eu tenho de ter cuidado com ela?

FÁBIA - Porque ela é lésbica. 

NÁRA - E se for? 

FÁBIA - Isso pega-se! 

NÁRA - Ai pega? Áhhh...é um vírus...? Então também tu deves ter cuidado...podes apanhar. 

FÁBIA - Deus me livre. 

NÁRA - Olha que ninguém está livre. 

FÁBIA (assustada) - A sério? Estás-me a assustar...

NÁRA - É verdade...! E não é preciso chegares-te a ela sequer...daqui a pouco chega a ti.

FÁBIA (preocupada) - Ai, e chegou aos outros e outras?

NÁRA - Não tenhas dúvidas...estamos todos contaminados...todos temos esse vírus, mas pode estar encubado durante muito tempo. 

FÁBIA (surpresa) - Ai é? 

NÁRA - É. 

FÁBIA - E tu já sabias?

NÁRA - Já...e depois?

FÁBIA - E não tens medo? 

NÁRA - Não. 

FÁBIA - Ai...eu tenho.

NÁRA - Não te vale a pena. Aliás, foi ela que te contou que é lésbica?

FÁBIA - Não precisou de contar...eu vi! 

NÁRA - Viste-a? Onde?

FÁBIA - Este sábado, à noite num bar. 

NÁRA - Áhhh...e tens a certeza que era ela?

FÁBIA - Absoluta. Estava a comer outra. 

NÁRA - Outra quê? Sandes...?

FÁBIA - Mulher. 

NÁRA - Áh! É canibal? 

FÁBIA - Espero que não...mas lésbica é! Tu não devias andar com ela. 

NÁRA - Não? E tu também não devias ir para os bares...olha que lá, o vírus prolifera-se.

FÁBIA - A sério?

NÁRA - É. 

FÁBIA - Ai, que medo... vou mas é tirar fotocópias...

NÁRA - É. E vê lá...nesses sítios também se pode apanhar. 

(Fábia sai da sala assustada e passa rápido pela Mára. Nára desata a rir, e conta à Mára. Mára dá umas valentes gargalhadas. 

                                 Cena 5 
(As duas conversam alegremente, e os rapazes olham para elas e comentam baixinho entre eles)

NÁRA - Olá bom dia...estão a olhar para onde?

TODOS (sorriem) - Bom dia...

HUGO (sorri) - Estás bem?

NÁRA - Estou óptima. Estavam muito espantados a olhar para nós as duas...o que foi?

(O grupo de rapazes aproxima-se e começa a tentar seduzir, a fazer carinhos, e depois começam a insultar as duas de tudo. Nára dá um estalo a cada um, e empurra-os. Mára fica em pânico. A seguir já toda a escola sabe, e todos insultam, mandam piadinhas de mau gosto, batem-lhe, puxam-lhe os cabelos, escrevem em folhas de papel e nos quadros das salas palavras obscenas e de mau gosto, racistas, ameaças...)

MÁRA (a chorar) - Eu vou-me atirar... vou-me matar. 

(Nára agarra-lhe a mão)

NÁRA (grita) - Mais uma palavra ou mais uma aproximação e eu dou cabo de vocês. Que coisa mais feia...homofobia...isso sim, é nojento! É doença...é um vírus cerebral...Quantos de vocês não são também, ou até não gostariam de experimentar...? Assumam...! Se calhar nunca tiveram fantasias com um homem...e mulheres com mulheres...para quê mentir? Isso é muito comum e é o mais saudável. Mais cedo ou mais tarde...Tanta ignorância! Nunca vos ensinaram a respeitar a diferença pois não? Mas ainda estão muito a tempo de aprender. Deixem-na em paz, e metam-se na vossa escolha. Vergonha não é ser lésbica, ou gay...é ser homofóbico, racista, fazer a guerra contra quem escolhe diferente. Por acaso somos todos iguais? Felizmente não! Seria o fim do mundo se todos fossemos tomados por esse vírus da ignorância e da falta de respeito pela diferença. Aliás...por acaso temos todos os mesmos gostos? Felizmente não. Amar alguém é crime? Amar o mesmo sexo, não é amar...? É guerra? É, para quem não tem nada na cabeça. Pelo menos ela se quiser, assume, se não quiser, ninguém tem nada a ver com isso. Quem quer desfilar namorados desfila, e ninguém condena por isso, mas duas mulheres juntas por opção, por sentimento verdadeiro...são condenadas. Tenham vergonha na cara... 

                                     Cena 6 
(Faz-se silêncio na escola toda. Umas raparigas e uns rapazes aproximam-se e abraçam Mára) 

G1 - És lésbica? 

MÁRA (a chorar) - Sou.

G2 (sorri) - Não estás sozinha.

L2 (sorri) - Bem vinda ao clube! 

L1 (emocionada) - Muito obrigada.  

L2 - Muito obrigada pelo teu testemunho. 

G3 - Muitos parabéns pela tua coragem.

G4 - Que sejas sempre muito feliz, com a mulher dos teus sonhos. 

L3 - Nunca te escondas...

L5 - Segue o teu coração, o teu sentimento e a tua vontade. Esquece o resto.

G5 - Estamos contigo! 

L6 - Ama sempre! 

(E aos poucos muitos outros se revelam. Mára ganha muitos novos amigos, e todos passam a ser respeitados, convivem na mesma escola e na mesma turma, e os homossexuais vivem os seus amores, livremente). 

                                                     FIM 
                                                Lara Rocha 
                                          (5/Setembro/2014)   

Mãe Adolescente (monólogo para adolescentes)


Cheguei há bocado do hospital. Pensei que já tinha apanhado grandes sustos na minha vida, mas este foi sem dúvida o maior de todos. Depois de algumas análises e conversas com o médico para despistar intoxicação alimentar ou problemas digestivos, o médico sugeriu que eu fizesse um teste de gravidez. Eu ri-me e pensei: ele está louco…mas como tinham de ter certezas do que era todo aquele mal-estar…não quis dar parte de fraca e fiz. Até porque tinha a convicção e certeza absoluta de que não estava grávida. Eis que estourou uma bomba na minha cabeça e nos meus ouvidos: não é que o raio do teste deu positivo? O quê? Eu? Grávida? Com 15 anos acabados de fazer… Aos 15 anos ninguém engravida…pensava eu, na minha ignorância. E não é na primeira vez que se engravida…! Dizia o meu namorado! Tanto eu como ele não percebíamos nada. Só queríamos curtir o momento e conhecer o nosso corpo…estar um com o outro…era o que tínhamos combinado! Pois…o que combinamos esquecemos rápido. Demasiado rápido…ou acho que nem nos lembramos. Com o fogo da lareira…queríamos era…bem…saborear…! Desculpem…deve haver aqui algum engano. Como é que eu posso estar grávida? Deu-me um ataque de histeria. Seguraram-me e disseram-me: menina acalme-se. Isso faz mal ao bebé. Bebé? Que bebé? O deles? Só se fosse, porque meu nunca podia ser. Eu tinha namorado, mas daí até…Pois! Daí até…! Fez-se luz na minha cabeça. Calei-me. Recordei aquela noite intensa, fria do inverno, na visita de estudo que fizemos a Lisboa. Uma noite louca, activa, de euforia. Éramos namorados, dormimos juntos. Aconteceu! Só dormimos juntos. Dizia eu, com toda a certeza. Depois, veio a lembrança do que aconteceu antes de só dormirmos juntos. Aí…nessa altura…o meu mundo caiu. Pois…é isso mesmo! Antes de dormir…claro! Bem, vocês sabem. Bem bebidos, quartos só para nós, enquanto apanhavam borracheiras até cair, eu e o meu namorado aproveitamos melhor o tempo. Tão bem aproveitado, que até recebemos um prémio. Um rebento. Eu é que rebentei quando soube. E agora? O que vai ser de mim, e da criatura que carrego? Eu não ganho dinheiro…os meus pais não ficaram felizes, mas não tiveram coragem de me pôr para fora de casa. Disseram que eu fui uma irresponsável. E fui. É verdade. Não sei onde estava com a cabeça! E logo eu, que tinha tanto medo de relações e das consequências…o que é que me deu? O que é que vou fazer agora? Menos mal que o meu namorado assumiu, mas ele também está na miséria. Não sei o que vai ser de nós. Também me custa que sejam os meus pais a sustentar-me, mas infelizmente acho que vai ter de ser assim, pelo menos…eles não querem que eu trabalhe, querem que eu continue a estudar, e eu também prefiro, é claro…mas…como é que eu vou sustentar uma cria…? Eu não percebo nada de crianças. Tive muito medo da reacção dos meus pais e do meu namorado, mas felizmente aceitaram bem. Bom…tive de levar a gravidez até ao fim, com a preciosa ajuda dos meus pais. Eles ficaram felizes, quando souberam que vai ser um menino. E eu também. Quer dizer…para mim tanto me fazia. Pensei muitas vezes em não seguir com a gravidez, mas via bebés na rua, e não tinha coragem. Tudo corria bem, até que a relação com o pai do meu filho desabou. Ele ficou doente…quer dizer…louco da cabeça. Tornou-se depressivo e teve uma depressão tão grave que tentou o suicídio e quase conseguia. Ninguém se apercebeu que ele estava a fabricar uma depressão. Mas estava, e só perceberam isso quando o viram cortado em várias partes do corpo, feitas por ele, e ainda por cima quase com uma overdose de medicamentos. Sinto-me até hoje culpada por isso…por nunca ter reparado que ele estava a sofrer…até porque ele não mostrava, mas eu…como namorada devia ter a capacidade de conhecer. Talvez por eu estar mais centrada no nosso filho, e em mim, não reparei. Ainda está internado. Tenho medo da reacção dele. Estou quase no fim do tempo…não sei se vamos voltar, mas o meu filho não vai pagar por isso. Nem pensar! A gravidez correu bem. Tive momentos de grande tristeza, e de alegrias também…graças à minha família que sempre me apoiou. É assustador pensar que aos 15 anos ainda podemos brincar com bonecos, e de repente, aos 15 anos temos nos braços um boneco de carne e osso, que cresce dentro de nós, que se mexe, que chora, que caga e mija… ai…que preocupação. Estou aqui cheia de medo…pesada, angustiada. Ao mesmo tempo que quero libertar-me deste peso e deste volume…tenho muitos medos. Agora não posso voltar atrás. É seguir em frente e crescer à força. Se fosse agora, não me deixava levar pelo calor da lareira…nem pela minha ignorância. Pode-se engravidar em qualquer altura. Raparigas, prefiram bonecos de plástico, não tenham pressa. Pensem muito bem antes de se deixarem levar pelo entusiasmo. Aproveitem ao máximo a vossa adolescência, o mais que puderem…porque um filho muda tudo. O meu filho vai nascer amanhã. A cesariana está marcada para amanhã. Estou com muito medo, mas o amor que já sinto por ele, suaviza a dor e a angústia. Em relação ao pai dele…bom…é possível que entre mim e ele não haja mais nada! Terei de ser forte, e aguentar, mas ele vai ter de assumir as responsabilidades em relação ao filho, porque o filho é um ser humano, e tem uma mãe e um pai…os avós, os tios…ele não se alimenta de ar e vento…implica muitos gastos. Pensava eu que só engravidava quem quer, mas na verdade…só engravida quem quer e quem não pensa, sim…quem se deixa levar pelo fogo do momento, pelo desejo e vontade de divertir, sem pensar nas consequências. Se não partir dele, a precaução deve partir de vocês. E se eles não aceitarem, virá quem aceite…boa noite e um pirolito e até à próxima. Ninguém diz que é fácil, mas somos fortes, e mais cedo ou mais tarde conseguimos superar tudo. Se eles não pensam, pensem vocês! Porque tudo pode acontecer, e não é só aos outros.

FIM
Lálá
(18/Outubro/2014) 

Loucas ou cobertas de razão (Adolescentes e adultos)

PERSONAGENS PRINCIPAIS:
Lara
Luciana
Natasha
Patrícia

PERSONAGENS SECUNDÁRIAS:
4 Senhoras
6 Enfermeiros
Psiquiatra
Secretária
Narradora

As quatro raparigas não se conhecem. São metidas numa sala do manicómio, batem nos enfermeiros, gritam, insultam-nos, … estão muito nervosas.
Os enfermeiros riem, fecham a porta da sala e elas ainda estão a disparatar. Atrás deles entraram quatro senhoras que assistiram a tudo. 
SECRETÁRIA - Boa tarde…as senhoras tem consulta agora?
SENHORA 1 - Por favor…não façam isso…!
SECRETÁRIA - Desculpe…?!
SENHORA 2 - Elas salvaram as moças…
SECRETÁRIA - Quem? Os enfermeiros…?! (p.c) Se calhar estão a delirar…
SENHORA 3 - Não, não estamos a delirar…a menina é que está a ser ignorante. E deve achar que somos umas analfabetas ou umas parolas quaisqueres… eles é que deviam estar enjaulados, esses bandidos.
SECRETÁRIA - Quem? Os enfermeiros…maltrataram-nas?
SENHORA 4 - Elas deviam ser premiadas!
SECRETÁRIA - Não estou a perceber nada…devem ser doentes…
SENHORA 2 - Cale-se menina…doente é você!
         A secretária controla-se. 
SECRETÁRIA - Desculpe…?! (p.c) O que é que se passa? Eu vou chamar o segurança…!
SENHORA 2 - Chame! Assim leva já estes de bata branca...pela tamanha injustiça que aqui estão a cometer!
SENHORA 1 - A bata realmente encobre muita miséria…só é pena não usarem uma também na cabeça, onde não têm nada.
ENFERMEIRO 5 (gozo fininho e a rir) - São mais quatro para a gaiola? Coitadas…vieram para o sítio certo…
SECRETÁRIA - Mas alguém me pode explicar o que está a acontecer?! (p.c) Isto parece uma casa de loucos…!
SENHORA 3 - Louca está a menina…! Já nem sabe onde trabalha…isto é o quê? Um café, um supermercado ou um restaurante…?
A secretária tapa a boca envergonhada. 
ENFERMEIRO 3 (a rir) - Calou-te…!
SENHORA 1 (zangada) - Julga que está a falar com doentes? Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai…! (p.c) Nós estamos no perfeito juízo, graças a Deus.
SECRETÁRIA - Mas…então o que é que estão aqui a fazer?
ENFERMEIRO 2 - Aqui não é a igreja…nem a farmácia, nem o café…!
Os enfermeiros riem, as senhoras não acham piada, e respondem em coro:
SENHORAS - Que engraçadinho…vês? 
SENHORA 4 (ralha) - Se voltas a abrir a boca bato-te!
SENHORA 3 - Não ligues…é canalha mal-educada.
SENHORA 2 - Com certeza devem-lhe fazer as vontadinhas todas…tem mimo a mais.
SECRETÁRIA - Eu volto a perguntar: o que é que as senhoras vieram aqui fazer?
         A Senhora 2 prepara-se para responder, mas é interrompida pelas outras que respondem em coro, e outra senhora (1) acrescenta:  
SENHORA 2 E 3 - Nós viemos…
SENHORA 1 - Em defesa daquelas moças…
SENHORA 4 - É. Aquelas que entraram agora ali.
SECRETÁRIA - Mas as senhoras conhecem-nas?
TODAS - Não!
SENHORA 3 - Mas assistimos a tudo!
TODAS - Pois foi!
SENHORA 2 - Elas salvaram umas moças…
SENHORA 4 - Deram umas boas sovas a uns bandidos.
SENHORA 3 - Ai foi tão emocionante…!
SENHORA 1 - Ainda estou arrepiada!
Benzem-se. E a secretária parece que começa a entender as coisas:
SECRETÁRIA - Então…mas foi por alguma coisa que vieram para aqui! (p.c) Os enfermeiros não iam buscar quem não precisa da nossa ajuda. Além disso…não se pode andar por aí a bater no primeiro que aparece…!
         Um dos enfermeiros (2) provoca a senhora (1), mas ela não se cala:  
ENFERMEIRO 2 - O que é que estas velhas estão aqui a fazer?
SENHORA 1 - Olha, meu filho…velha é a tua avozinha!
ENFERMEIRO 2 - (a rir) Como é que sabe que é velha? Conhece-a?
SENHORA 1 - Conheço! (p.c) Coitada! Tem vergonha do neto que tem.
- (a rir) Claro…é velha e louca…já não sabe o que diz…coitada.
SENHORA 3 - Que grande mal-educado!
SENHORA 4 - Não serás muito melhor quando para lá fores…se lá chegares.
SENHORA 2 - Ai, se fosses meu filho ou meu neto levavas-me semelhante tareia…
SENHORA 1 - Ai pois levavas…e olha que ainda estás em boa idade de levar umas chineladas nesse cu…
ENFERMEIRO 3 - Essa é boa…Uuuiiii…que medo…velhota…a minha mãe e a minha avó nunca me bateram, e vai ser agora você…que nem me conhece!
ENFERMEIRO 2 - (a rir) Óh avozinhas…ide rezar o tercinho, ide…!
SECRETÁRIA - Óóóhhhh…então…? Isso é maneira de falar com as senhoras?
ENFERMEIRO 1 - Olha-me esta, metida a educada…
ENFERMEIRO 2 - Essa é qualquer coisa menos santinha…
Riem, a Senhora (4) elogia a atitude da secretária:
SENHORA 4 - Ao menos é mais educada do que vocês todos, seus grossos.
         A secretária tenta acabar com o assunto, mas o enfermeiro (4) não tem a mesma intenção:
SECRETÁRIA - Bom, bom, bom…a conversa já está a cheirar mal…
ENFERMEIRO 4 - Que eu saiba ninguém se ca…quer dizer…largou…
Gargalhadas dos enfermeiros. A secretária condena a atitude dos enfermeiros:
SECRETÁRIA - São mesmo ordinários. Mas, minha senhoras, em que posso ajudá-las?
         As senhoras gritam em coro:  
SENHORAS - Tirem as raparigas dali!
SECRETÁRIA - Desculpe, mas isso não posso!
         A senhora (2) tenta convencer a secretária, mas esta despacha as senhoras:
SENHORA 2 - Óh menina…pense…se estivesse em apuros, nas garras de autênticos animais…ou piores do que isso…e se uma daquelas meninas a salvasse, acha que são loucas e que merecem estar ali?
SECRETÁRIA - Bem…eu…não sei! Não tenho nada a ver com isso. Quero é que…olhem, esperem um bocadinho, por favor, vou chamar um Doutor.
         Todas respondem em coro, e depois as senhoras (1, 3, 2) acrescentam indignadas:
SENHORA 1 - Chame…
SENHORA 3 - É por estas que eles andam à vontade…claro…ninguém tem nada a ver com o assunto…
SENHORA 2 - É. E é por isso que as que não ficam indiferentes são loucas.
SENHORA 1 - Elas fizeram um favor à sociedade, à polícia e àquelas mulheres.
TODAS - Pois foi…!
SENHORA 5 - Deviam ir todos para estas salas, para aprenderem.
SECRETÁRIA - Podem entrar senhoras…o Doutor vai atendê-las.
TODAS - Obrigada.
NARRADORA - As senhoras seguem a secretária. Os enfermeiros estão às gargalhadas.
ENFERMEIRO 1 (a rir) - Coitadas…
ENFERMEIRO 2 (a rir) - Estão mesmo mal.
ENFERMEIRO 3 (a rir) - Daqui a pouco estão às cabeçadas.
(gargalhadas).
ENFERMEIRO 4 (a rir) - Olhem para elas…estão para ali a ladrar…
ENFERMEIRO 2 (a rir) - As paredes que as aturem…!
ENFERMEIRO 5 (a rir) - Parecem galinhas engalfinhadas.
ENFERMEIRO 6 (a rir) - Estão mesmo melhor aqui!
ENFERMEIRO 1 - Claro, senão desgraçados de quem as apanhasse pela frente neste estado.
ENFERMEIRO 3 - Elas até são bonitas…é pena estarem tolinhas! Coitadinhas…
ENFERMEIRO 5 - Vamos mas é embora.
ENFERMEIRO 2 (a rir) - Eu estou a gostar do espectáculo.
ENFERMEIRO 6 - Elas hão-de acalmar!
ENFERMEIRO 4 - No fundo…tenho pena delas.
(Riem e saem)
NARRADORA - Que cromos…eu queria vê-los lá…vocês mereciam todos era cadeia. Os doentes ainda ficam piores com o vosso trato. Parecem carniceiros. Acho que elas concordam…
LARA (grita, nervosa) - Que estúpidos…
NATASHA (nervosa) - Eu se os apanho outra vez, até lhes arranco o couro…
PATRÍCIA (nervosa) - Eu se apanho aqueles idiotas outra vez, faço logo molho de tomate, quando lhes apertar aqueles entre folhos…aiiii…que nojo…estrangulo-os…se é que os têm…só devem servir para enfeitar…
LARA (fula) - hummmm…são todos iguais…!
LUCIANA (saltita de nervos) - Que ódio…! Quando eu sair daqui, é melhor fugirem.
NATASHA (a ferver) - Bestas…!
LARA (nervosa) - Enfiava-os todos aqui…! Não escapava um…
NATASHA (nervosa) - Como é que é possível, aquelas ficarem na mesma, a apanhar daqueles monstrengos…calhaus…
PATRÍCIA (nervosa) - Pois…tudo a olhar, e ninguém foi capaz de resolver a questão…!
LUCIANA (nervosa) - Uma pessoa abre os olhos às outras…e ainda passa por louca…
LARA (nervosa) - Como é que eu podia ficar indiferente…! Saltou-me logo a tampa, mas bati pouco! Eu devia ter desfeito aquele anormal.
NATASHA (nervosa) - Para que é que me seguraram…?! Já que os superiores não fazem nada…ao menos o povo devia fazer, com as próprias mãos…com certeza se autorizassem isso, não havia tanta pouca vergonha.
PATRÍCIA (chateada) - Grande idiota…como é que eu fui tão pata em acreditar…aaaaaaaaaaiiiiiii… que otária…
NATASHA (nervosa) - A raça homem ainda tem muito que aprender!
LUCIANA (nervosa) - Não…já não aprendem. Há coisas que já nasce com eles...desde a pré-história. Pararam no tempo.
LARA (nervosa) - Incógnitos...
PATRÍCIA (nervosa) - Atrasados…
NATASHA - Imbecis…
LUCIANA - Palhaços.
LARA - Que raça tão ridícula…!
LUCIANA - Não têm nada nas cabeças…
(Olham umas para as outras fixamente)
PATRÍCIA - Espera aí…eu não estou sozinha…?!
LUCIANA - Não! Estamos aqui 4…!
NATASHA - Aqueles anormais é que deviam estar aqui.
TODAS - Claro que sim…!
PATRÍCIA - Aahhh…chamo-me Patrícia…e vocês?
LARA - Eu chamo-me Lara…
(Dois beijinhos)
PATRÍCIA - Muito gosto…
LARA - Igualmente.
NATASHA - Eu sou a Natasha…
PATRÍCIA E LARA - Olá!
NATASHA - Olá…Patrícia…e…Lara…!
(dois beijinhos)
LARA - Gosto do teu nome…Natasha…
NATASHA (sorri) - Obrigada! Lara também soa bem…e Patrícia também é fixe. E tu?
LUCIANA - Olá, Patrícia, …Lara…e…Natasha…chamo-me Luciana!
TODAS (sorriem) - Que nome giro!
PATRÍCIA (sorri) - Condiz contigo…!
LUCIANA (sorri) - Obrigada.
PATRÍCIA - Bem…já que nos enfiaram aqui…é melhor…sentarmo-nos!
TODAS - Sim.
NATASHA - Esta corte não tem sofás, nem nada…
TODAS - Realmente…
LUCIANA - Que nojo de sítio.
TODAS - Podes crer.
LUCIANA – Isto é para malucos não é?
TODAS - Aparentemente…sim.
LARA - Não entendo como é que num sítio destes, os doentes melhoram…ou ficam curados…!
PATRÍCIA - Eu tenho muitas dúvidas que tal aconteça.
LUCIANA - Eu acho que aqui enfiados, ainda ficam piores.
(Elas sentam-se em roda, no chão, olham-se).
NATASHA - Ainda por cima com aqueles enfermeiros ridículos…parvalhões, ordinários…grossos…com risinhos de trogloditas…!
LUCIANA - Pois é.
LARA - Dá vontade de lhes pregar um chapadão!
TODAS - É mesmo.
LUCIANA - Será que as mães deles sabem das peças que deram à luz?
TODAS - Hummmm,..
PATRÍCIA - Acho que não…
NATASHA - Até devem ter vergonha deles…!
LUCIANA - Se elas soubessem o que lhes ia sair…depois do que devem ter sofrido…coitadas…estavam melhor quietinhas, a dormir um sono.
(gargalhadas).
LARA - Era de fazer queixa deles…
TODAS - Pois…!
PATRÍCIA - Mas a quem…?
LARA - Não sei…ao director do hospital ou assim…
TODAS - Sim, talvez.
PATRÍCIA - Mas olhem, porque é que vieram aqui parar?
LARA (zangada e indignada) - Olha, eu vim, porque dei tanta porrada numa besta quadrada que estava a bater numa rapariga. Ai, eu fiquei podre! Não podia deixar passar… (p.c) libertei nesse a minha raiva toda contra os homens…principalmente os que me magoaram…cabrões…aquele porco, badalhoco, é que tinha de estar aqui. (p.c) Eu defendi a rapariga e ainda venho aqui parar… (p.c) bati-lhe com a carteira nas trombas, dei-lhe chutos nos guizos, nas canelas, e socos no estômago, chapadas…tudo. (p.c) O anormal caiu logo, e o térinho do guarda estava a ver aquele espectáculo triste e nem se aproximou. Só quando ouviu a rapariga aos gritos, e eu em cima dele, é que veio para me segurar e achou que eu estava louca… (p.c) que estúpido…! Ouviu tantas…
TODAS (a rir) - Muito bem!
NATASHA - Eu também não me segurava…
PATRÍCIA (a rir) - Eu também não. E o bestoina do guarda também apanhava.
LUCIANA - Foi o melhor que fizeste! Eu também estou aqui por bater num palerma ia gamar uma velhinha.
LARA - Bati-lhe tão pouco…
LUCIANA - Eu também! Agarram-me, em vez de acabar com a raça do cabrão que estava a gamar.
TODAS - Daaaaahhhh,,,,
LUCIANA - Mas eu não o larguei. Também foi para jaula. (p.c) Passei por louca…mas não quero saber! Só tive pena de não lhe ter dado mais. Ao menos o polícia agradeceu-me, e a velhinha também, mas disse que era melhor eu vir para aqui acalmar um bocadinho…disse-lhe tantas…! O cromo só se ria na minha cara.
PATRÍCIA - Mas recuperaram a carteira da senhora?
LUCIANA - Sim! Ele não saiu do sítio!
TODAS (a rir) - Bem feita!
PATRÍCIA (nervosa) - Eu vim, porque bati no meu ex…e na nova gaja que ele arranjou! Que filha da…hum…inventou que ia trabalhar para fora e que era melhor acabar. (p.c) É claro que eu não queria…achava que o nosso amor ia ser mais forte…mas pronto…lá lhe fiz a vontade, também não dei parte de fraca…o pior foi depois…! (p.c) Quando fui ao sítio onde nos costumávamos encontrar, dou de caras com ele, a comer a outra porca, cadela vádia…que estúpido…atrasado…podia ter dito logo que tinha outra. Ela não vale um corno…é feia, feia, feia…lhec…eu posso não ser grande coisa, mas ela passa-me a perna de longe! Está a precisar de óculos.
(gargalhadas).
NATASHA - É da caca que eles gostam. Pode não valer um corno, mas se lhes dão uma certa coisa…que nós sabemos…já serve e já é boa. Melhor do que aquelas que os amam de verdade, mas que nem sempre lhes fazem as vontades todas.
LUCIANA - Podes crer…as presas fáceis. Os homens não prestam mesmo!
TODAS - Podes crer!
PATRÍCIA - Pararam na idade da pedra em muitas coisas.
TODAS - É isso mesmo!
LARA - Isso eu já tinha dito há muito.
PATRÍCIA - São tão limitados…!
LARA - São mesmo! A única evolução foi andarem direitos, e a cabeça ter crescido em volume.
NATASHA - Estás coberta de razão. Foi mesmo só o volume, porque conteúdo não tem absolutamente nada. Continuam com velhos hábitos da idade da pré-história.
(gargalhadas)
PATRÍCIA - E tu, Natasha porque é que vieste para aqui?
NATASHA - Olha, foi por uma razão muito parecida que a Lara…vi um casal a discutir. Ele a bater-lhe e a insultá-la de tudo, e ela a deixar, mas cheia de medo…não me segurei. Ainda por cima ela estava grávida e até na barriga o anormal lhe estava a dar pontapés…! (p.c) Ai…saltou-me a tampa…ele não ficou muito melhor, depois da tareia que levou. Também foi para o hospital. E deixei os meus dados com a polícia, para depois ir prestar declarações.
LARA, LUCIANA E PATRÍCIA - Eu também.
LUCIANA - A sociedade está mesmo louca.
PATRÍCIA - Tens toda a razão. Mais concretamente os homens…
TODAS - Pois!
NATASHA - Realmente…já repararam que tudo o que acontece de mau…esses crimes e outros mais nojentos…que se fala todos os dias…são feitos por homens…?!
TODAS (pensativas) - Realmente! É verdade…!
PATRÍCIA - Aí está outra prova da fraqueza dessa raça.
LUCIANA - Se não fossemos nós mulheres, coitados deles…!
TODAS - Pois é.
LARA - E mesmo assim, esses grandessíssimos cabeçudos ainda gozam connosco…
PATRÍCIA - É mesmo…usam-nos e deitam fora…só querem é gajas…umas atrás das outras…
NATASHA - Isto quando não são duas ou três ao mesmo tempo…
LUCIANA - Pois…e maltratam-nos…!
LARA - São muito mal agradecidos…
TODAS - Ingratos!
LARA - Sim, é isso.
NATASHA - Nós preocupamo-nos com eles, somos carinhosas…ganhamos logo o titulo de possessivas, chatas, que somos como as mães deles… (p.c) que estúpidos. Eles não pensam em praticamente nada. Só tem um canal de cada vez, nós temos meia dúzia ao mesmo tempo se for preciso…! O nosso pensamento é muito mais diversificado.
TODAS - É mesmo.
PATRÍCIA - Nós aguentamos todo o tipo de sofrimento…eles…com uma simples constipação já ninguém os atura!
LARA - Eles haviam de ser mulheres por um dia…
LUCIANA - Ui, ao fim de poucos minutos desistiam.
(gargalhadas)
LARA - Também tenho essa impressão.
PATRÍCIA - E estás coberta de razão. Eu também gostava de os ver um dia como mulheres…ia ser lindo (gargalhadas).
NATASHA - Suicidavam-se.
TODAS (a rir) - De certeza!
PATRÍCIA - Não valem nada, mesmo.
TODAS - Pois não.
LUCIANA - Tem coisas que são todos iguais. Só muda a fronha, de resto…é tudo a mesma porcaria.
TODAS - Sim.
NATASHA - Só têm tamanho e muita estupidez!
TODAS - É isso mesmo!
LUCIANA - A tola deles tem um buraco maior que a camada de ozono.
(gargalhadas)
NATASHA (a rir) - Adorei essa.
LARA (a rir) - Excelente comparação...
PATRÍCIA - Já vi que nenhuma de nós tem namorado…
TODAS - Não.
LARA - Não sei onde andam homens românticos, que olhem para o nosso interior…que nos respeitem, que sejam meigos e sinceros…que nos dêem apoio…
TODAS - Eu também não sei deles…
PATRÍCIA - Talvez já não existam.
LUCIANA - Eu, ainda tenho esperança que exista algum diferente…
LARA - Eu também, embora muito reduzida...
NATASHA - Eu, já não tenho esperança nenhuma! Vou ficar para tia o resto da vida.
(riem)
LARA - Eu faço-te companhia…
LUCIANA E PATRÍCIA - Eu também.
PATRÍCIA - Mas se é para ter uma porcaria de um homem, estamos melhor sozinhas.
TODAS - Podes crer.
NATASHA - Eu nunca aceitaria um homem que me maltratasse fisicamente. Ai podia-me levantar a mão uma vez, mas não voltava a baixá-la nesse dia, e não me voltava a ver!
PATRÍCIA - Claro. Passamos muito bem sem homem, ao contrário deles…que não passam sem uma mulher.
TODAS - Claro!
LUCIANA - Há mulheres que também não têm nada nas cabeças, ao juntar-se com certo tipo de homens…aquelas que se juntam por dinheiro, ou que apanham e dizem que o amam…francamente...
NATASHA - Nós somos superiores a eles. Podemos ser independentes, só precisamos de ter auto-estima…gostar de nós como somos.
PATRÍCIA - Sim, claro! E estarmos bem connosco, apreciarmo-nos, aceitarmo-nos como somos, e não fazer coisas só para agradarmos aos homens. Não vale a pena sacrificarmo-nos por eles, nem sofrer muito.
LARA - Podes crer. Esses são uns eternos insatisfeitos. Por mais bonitas que sejamos, aparece uma melhor…deixamos de ser…as mais bonitas podem não ter nada…mas o pacote é atraente já é bom…
NATASHA - Estão cobertas de razão. Eu não mudo nada em mim para atrair esses cabeçudos. Gosto de mim assim, e eles também ou gostam de mim com tudo o que tenho, ou não gostam e que vão para o raio que os partam.
(riem)
TODAS - Eu igual.
PATRÍCIA - Mas infelizmente há mulheres que têm essas ideias fixas, e que vivem na ilusão de que os vão cativar se tiverem coisas…falsas!
LUCIANA - Essas são sol de pouca dura. Eles iludem-se também com o fogo-de-vista, mas chega à hora, e o mais importante elas não dão. Bem-feita para eles.
NATASHA - Merecem todos sofrer muito…!
LARA - Ainda têm muito que aprender sobre as mulheres. São tão ignorantes…que tristeza.
TODAS - Estás coberta de razão.
PATRÍCIA - Ai, querida, acho que nunca vão aprender, mais de metade…!
NATASHA - Concordo.
NARRADORA - Elas continuam a cortar na casaca dos homens, falam sobre outras coisas, riem muito umas com as outras, um enfermeiro espreita e está surpreso. Elas olham para a porta, reviram os olhos, fazem-lhe cornos com os dedos, e caras feias. O enfermeiro ri-se.
TODAS (gritam, nervosas) - O que é que tu queres óh anormal…?
NATASHA - Parece uma varejeira ali assapada…!
(gargalhadas).
LUCIANA (a rir) - Tem nariz de porco… (gargalhadas)
PATRÍCIA (a rir) - E focinho de sapo… (gargalhadas)
LARA (a rir) - Daqui a pouco temos aqui o jardim zoológico.
(gargalhadas)
NATASHA - Daqui a pouco atiro-lhe com as botas aos cornos.
(Riem).
LARA (a rir) - Podes juntar as minhas.
NATASHA - E não sai dali…que estúpido… (rosna, e grunhe)
NARRADORA - Pega num sapato e atira para a porta.
NATASHA (grita) - Vai catar piolhos para o esgoto…! Porco!
NARRADORA - Todas fazem cornos e caretas, o enfermeiro afasta-se, elas riem).
PATRÍCIA - Ai, quando eu sair daqui e apanhar aquele sapo...
LARA - E podes contar comigo.
NATASHA - Eu também alinho.
LUCIANA - Eu igual.
PATRÍCIA - Ainda vai demorar muito a sairmos daqui?
TODAS - Espero que não.
NATASHA - Havíamos de mandar para o jornal. 
LUCIANA - Será que ninguém vai telefonar para nos virem buscar?!
LARA - Ainda não vieram aqui perguntar nada!
NARRADORA - Abrem a janelinha da porta com um tabuleiro com medicamentos.
ENFERMEIRO - Meninas…tomem isto!
NARRADORA - Elas levantam-se nervosas, com caras de más.
NATASHA - O que é isso?
TODAS - Boa coisa não é!
ENFERMEIRO (com ar de gozo) - São uns rebuçados…para assentar a vossa histeria…
NARRADORA - Patrícia pega no tabuleiro, Natasha agarra nos cabelos do enfermeiro e grita.
NATASHA - Sabes onde é que eu te vou enfiar estas coisas?
ENFERMEIRO - Tenham calma, meninas…vá…eu só estou a cumprir ordens…!
LUCIANA - Ordens de quem?
ENFERMEIRO - Dos psiquiatras.
PATRÍCIA - Mas alguém veio falar connosco sequer? Porque é que os psiquiatras não vêm cá…?! Têm medo é?
TODAS - De certeza.
ENFERMEIRO - Não…não…não…mas eles viram como vocês entraram perturbadas…e os outros enfermeiros contaram…
NATASHA - O que é que tem a haver o cu com as calças?
ENFERMEIRO - Assim, nesse estado ninguém consegue falar convosco!
LARA - Imagino o que devem ter contado…! (p.c) Que diagnóstico bem feito, realmente… (p.c) através do que os outros contam…! Francamente!
NATASHA - Realmente…que incompetência! Olha, diz lá a quem tu quiseres para vir aqui imediatamente. (p.c) Antes que façamos de ti carne picada…
NARRADORA - Natasha pega no tabuleiro, dá com ele na cabeça do enfermeiro, Luciana e Lara apertam-lhe o pescoço e Patrícia dá-lhe uma chapada. Ele geme, e grita, elas largam-no.
NATASHA - Isto é só uma amostra insignificante do que te podemos fazer…
ENFERMEIRO (assustado) - Loucas…não vão sair daqui tão cedo!
TODAS - Isso é o que nós vamos ver…
PATRÍCIA - Chama mas é lá o raio do psiquiatra. Tens 2 minutos…se não aparecer, tu é que vais pagar.
TODAS: (gritam) - Despacha-te.
LUCIANA - Estropício.
NARRADORA - Ele fecha a janelinha, desatam às gargalhadas e chocam as mãos umas com as outras. Aparece o psiquiatra, ainda novo. Elas olham.
PATRÍCIA - É este o psiquiatra, ou é mais um estafermo de um enfermeiro?
TODAS - Deve ser o psiquiatra.
(Ele entra, elas olham-no).
PSIQUIATRA (sorri) - Boa tarde, passarinhas…
NARRADORA - Olham – se, olham em volta e voltam a olhar umas para as outras.
PSIQUIATRA (sorri) - Boa tarde…!
NATASHA - Ai está a falar connosco…?! Pensamos que estava a falar para aqueles lá fora, com penas, em cima das árvores.
PATRÍCIA - Por essa descrição só podia ser para esses…
LUCIANA - É assim que você trata os seus doentes…?
PSIQUIATRA (sorri) - Estava só a pôr-vos à vontade…calma…! Não precisam de ficar tão chateadas.
NATASHA - Você deve ser uma ave…e rara…!
PSIQUIATRA - Ave rara, eu? (p.c) Eu sou um homem…
TODAS - Já reparamos…
PSIQUIATRA - Vim falar convosco…mas primeiro tomem aqueles rebuçados que vos enviei…!
PATRÍCIA - Ainda se fossem flores…
NATASHA - Ou chocolates…
LARA - Nem isso…
TODAS - Pois…
NATASHA - Realmente…vindo de si…qualquer coisa é de desconfiar. Não seja ridículo… (p.c) rebuçados…e nós nascemos ontem…
PATRÍCIA - Coma-os você!
LUCIANA - Não precisamos de porcaria nenhuma! (p.c) Aliás, você e esses insectos…é que deviam estar na jaula.
PSIQUIATRA - Que insectos…? Que jaula?
NATASHA - Ai, santa ignorância.
TODAS - Daaaaahhhh…
PSIQUIATRA - Estão muito nervosinhas…tomem aquilo! Vai fazer-vos bem.
LUCIANA - Quer que façamos um desenho?
LARA - Já dissemos que não tomamos nada.
PSIQUIATRA - Pronto…daqui a pouco tomam à força.
(gargalhadas)
PATRÍCIA - Essa tem piada…à força…você vai ver, quem é que faz o quê…à força…!
PSIQUIATRA - Bom, controlem-se, por favor. Porque é que estão aqui?
LARA - Pelos vistos os loucos…os doentes…os tarados…são os que fazem o bem pelos outros…não?
TODAS - É.
NATASHA - E os homens da idade da pedra andam à solta a dar cabo das mulheres…
PSIQUIATRA - Desculpem, não estou a perceber.
(Olham-se)
TODAS - Que novidade…!
PATRÍCIA - Os homens nunca percebem nada…é uma coisa…!
NATASHA - É preciso fazer um desenho?
LUCIANA - Que limitação.
PSIQUIATRA - Não, não precisam de fazer um desenho…basta falarem sobre o assunto.
LARA - Viemos para aqui porque salvamos pessoas.
PSIQUIATRA - Mas, não pode ser…
NARRADORA - Cada uma reconta o que fez. O psiquiatra está incrédulo. Um enfermeiro bate à porta.
ENFERMEIRO - Desculpe, senhor doutor…estão lá fora umas senhoras que querem entrar, porque dizem que viram tudo o que aconteceu, e estão a dizer que essas…têm toda a razão. Elas querem ver essas galinhas chocas.
TODAS (admiradas) - Que parvalhão. Que senhoras…?
PSIQUIATRA - Pode mandar entrar.
(As senhoras entram).
SENHORA 1 - Sim, Dr., eram esta menina…!
SENHORA 2 - Eu também confirmo.
(As outras dizem que sim).
SENHORA 4 (sorridente) - Esta menina foi um anjo!
SENHORAS (sorriem) - Também digo!
SENHORA 2 - Esta menina deu uma boa sova àquele bandido, monstro, maldito…demónio…que estava a bater na mulher.
SENHORA 1- E com certeza ainda lhe bateu pouco!
SENHORA 3 - Foram muito corajosas!
SENHORA 1 - Até mereciam um prémio…
(Elas estão boquiabertas).
PATRÍCIA - As senhoras viram…?
SENHORAS - Sim, meninas!
PSIQUIATRA - Mas…as senhoras não acham que elas se excederam? (p.c) Não se pode andar por aí a bater assim…
SENHORAS - De maneira nenhuma.
SENHORA 1 - Eles até mereciam muito mais!
SENHORA 4 - Imagine que era doutor que estava a apanhar ou a ser assaltado…se fossem em sua defesa…mandava internar?
PSIQUIATRA - Hum…bem…se fosse eu…se alguém me defendesse…agradecia muito!
SENHORA 2 - Mas com certeza não mandava internar…
PSIQUIATRA - Bom, talvez não…
SENHORA 3 - Tenho a certeza de que as outras moças também vão agradecer.
SENHORA 4 - O Dr., ficava na mesma…não fazia nada se visse um homem a bater numa mulher?
PSIQUIATRA - Na…não…se visse um homem a bater numa mulher…separava-os e batia-lhe eu…ao homem, claro!
TODAS - Áááááááhhh…está a ver…?!
SENHORA 1 - Mas foi exactamente o que elas fizeram.
SENHORA 2 - Não percebo porque é que vieram aqui parar.
SENHORAS - Parabéns, meninas!
(elas sorriem)
TODAS (a sorrir) - Muito obrigada.
PSIQUIATRA - Aahhh…não se importam de se retirar um bocadinho, por favor?! (p.c) preciso de falar com as meninas e já falo convosco a seguir.
SENHORA 4 - Certo. Mas elas têm que sair!
SENHORA 2 - É uma vergonha se elas ficarem aqui.
SENHORA 1 - Pois…ainda por cima, depois de terem feito bem!
(sorriem)
PSIQUIATRA - Sim, não se preocupem. Elas já saem.
(elas saem, e esperam à porta).
PSIQUIATRA - Bem…apanharam-me um bocado de surpresa…de facto…o que vocês fizeram não era motivo para estarem aqui, mas sim…uma obra de caridade.
TODAS - Ááááhhh…que descoberta, vê…?
LUCIANA - Estou impressionada com a sua rapidez…
PSIQUIATRA - Mas…vocês não estão loucas…só que exageraram um bocadinho…! Admitam.
TODAS - Batemos pouco, isso sim.
NARRADORA - O psiquiatra faz mais algumas perguntas.
PSIQUIATRA - Bem, vejo que vos posso dar alta. Mas prometam-me que se vão portar bem.
TODAS - Sim.
NATASHA - Nós portamo-nos sempre muito bem!
PSIQUIATRA - Por favor…acalmem-se, descansem…precisam de alguma coisa?
TODAS - Não!
PSIQUIATRA - Tomem alguma coisa para vos ajudar a relaxar, faz-vos mal estarem nesse estado de nervos.
TODAS - Não tomamos nada.
PSIQUIATRA - É só para vos ajudar.
PATRÍCIA - Saindo daqui já ficamos boas!
PSIQUIATRA - Pronto…! (p.c) Saiam lá…com juízo.
NARRADORA - Elas saem.
PSIQUIATRA - Vão ali buscar as vossas coisas.
NARRADORA - Elas vão à secretária, e ela dá-lhes as carteiras e os casacos.
PSIQUIATRA - Qualquer coisa estamos aqui.
NARRADORA - Elas não respondem. Viram costas e saem. Respiram fundo. Olham – se contentes. Aparecem as senhoras, abraçam-nas, fazem-lhes festinhas, dão-lhes beijos, elas sorriem contentes.
RAPARIGAS (sorridentes) - Muito obrigada.
LARA (a rir) - As senhoras foram maravilhosas!
(As senhoras riem).
SENHORA 1 (sorri) - Ora essa! Vocês é que foram.
SENHORA 2 (sorri) - Não era correcto o que eles estavam a fazer!
SENHORA 4 - Pois não! Vocês até fizeram um favor, um acto bondoso…!
SENHORA 3 - Os homens não prestam!
SENHORA 2 - Haviam de ir todos presos…
SENHORA 1 - E com os lombos quentes de porrada.
(As raparigas riem).
SENHORA 4 - Eu até tenho pena das mãezinhas deles.
SENHORA 2 - Não tiveram educação…não devem ter levado assim uns bufardos, e umas chineladas nos cus…
(As raparigas riem).
SENHORAS - Bandidões…estafermos…!
(Elas abanam a cabeça a dizer que sim, e riem)
SENHORA 2 - Andam todos com o demo!
(As raparigas riem).
RAPARIGAS (a rir) - Tem toda a razão!
(As senhoras dão-lhes mais beijinhos).
SENHORA 1 - Vou rezar por vocês.
AS OUTRAS - Eu também.
SENHORA 3 - E eu vou acender umas velinhas…para estarem sempre acompanhadas e protegidas…e terem muita saudinha!
(As raparigas sorriem)
TODAS - Muito obrigada!
LARA (sorridente) - Desejamos o mesmo para as senhoras!
SENHORAS - Obrigada, filhas.
SENHORA 2 - Olhem, eu vou-me embora…! Mas não me vou esquecer do que fizeram…
(sorriem)
LUCIANA (sorri) - Tudo de bom para a senhora…! E vêmo-nos por aí!
SENHORA 2 - Ai, sim filha…nunca se sabe quando não vou precisar também de vocês!
TODAS (sorriem) - Esperamos que não.
NATASHA (sorri) - Mas pode ter a certeza que se precisar estamos do seu lado e vamos ajudá-la.
SENHORA 2 - Obrigada, queridas.
(Dá 2 beijinhos a cada uma, elas sorriem)
SENHORA 1 - Eu também tenho de ir.
SENHORA 3 E 4 - Eu também!
SENHORA 3 - Continuem assim.
SENHORA 4 - Sim. A sociedade precisa de gente como vocês!
(Sorriem, mais 2 beijinhos e as senhoras lá vão à vida delas. As raparigas riem e estão felizes).
LARA (sorri) - Ao menos alguém reconhece e dá valor.
TODAS (sorriem) - Yá!
LUCIANA (a rir) - Só por isto já valeu a pena.
NATASHA (a rir) - Aquelas senhoras foram maravilhosas!
TODAS (sorriem) - Podes crer.
PATRÍCIA - Meninas…estamos cá fora…! Onde é que vocês moram?
NARRADORA - Cada uma explica onde mora. Descobrem que moram muito perto umas das outras.
NATASHA - Eu…gostei tanto de estar ali convosco e de vos conhecer…não queria perder o contacto convosco…podem dar-me o vosso número de telemóvel…?
TODAS - Claro…
NARRADORA - Trocam números de telemóvel, e-mails, moradas, sorriem.
LUCIANA (sorri) - Que fixe! Eu também adorei conhecer-vos e estar convosco.
LARA (sorri) - Eu também.
PATRÍCIA - Agora temos de nos encontrar mais vezes…
TODAS (sorridentes) - Claro que sim!
LARA (sorri) - Com todo o gosto!
NATASHA (feliz) - Vamos lanchar juntas a qualquer lado, hoje?
TODAS (a rir) - Sim…vamos.
PATRÍCIA (sorri) - Onde…? Eu vou para qualquer sítio.
TODAS - Eu também.
NATASHA - Venham comigo! Eu conheço um sítio fixe.
NARRADORA - E lá vão elas todas contentes, a rir e a falar umas com as outras, até um café. No lanche descobrem que têm muitas coisas em comum. No fim, antes de irem para casa, abraçam-se umas às outras felizes e sorridentes, dão 2 beijinhos na cara. Depois desse dia passam a encontrar-se todos os dias, a andar sempre juntas, e tornam-se verdadeiras e grandes amigas. (p.c) Pois é…às vezes, nos sítios mais estranhos, e nos momentos mais inesperados, nasce uma linda e eterna amizade! (p.c) Elas não eram loucas…estavam cobertas de razão…!
FIM!      
Lálá     
 (28/Janeiro/2010).