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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Marta e Isabel à descoberta do campo

NARRADORA - Era uma vez duas meninas gémeas, que viviam numa cidade enorme, muito movimentada e muito poluída, que foram passar uns dias à casa de uma amiga, que vivia numa casa de campo, nos arredores da grande cidade. As duas manas estavam curiosíssimas para saber como era viver no campo, depois de Ritinha lhes falar todos os dias sobre a vida de campo. Era muito diferente da maneira como Marta e Isabel viviam, mas quiserem ir mesmo lá para ver como era. Ritinha contava as horas para a chegada das amigas, ansiosa, aos saltinhos de alegria, e sempre a olhar para o portão. Os pais de Marta e Isabel preparam as malas das meninas, com tudo o que era preciso, e as duas levaram também os bonecos e alguns brinquedos. As duas meninas também estavam entusiasmadas, tanto que não dormiram bem de noite, mas mesmo assim, estavam cheias de energia e alegria. Os pais levam-nas a casa da amiga Ritinha, com cantorias e algumas recomendações, para que se portassem bem, e ajudassem os pais da Ritinha, entre outros assuntos. Chegam finalmente à casa de Ritinha, e são muito bem recebidos pelos pais dela, com os queridos dez cães que mal ouviram o barulho do carro dirigiram-se para o portão. Ritinha nem quer acreditar…está com um sorriso de orelha a orelha. As meninas saem do carro, cumprimentam a amiga, com abraços e beijos, cumprimentam os pais, e acariciam os cães, enquanto os adultos falam entre si.  
RITINHA (feliz) – Estava a ver que nunca mais chegavam! Que bom que vieram. Vão adorar estar aqui.
MARTA (feliz) – Trouxemos os bonecos, e mais alguns brinquedos.
RITINHA (sorri) – Boa. Venham pousar as coisas…
ISABEL – As nossas coisas estão na mala.
MARTA – Mamã…papá…tirem-nos as coisas se faz favor…!
MÃE (ri) – Está bem.
MÃE DE RITA (sorri) – Estão tão felizes.
MENINAS (sorridentes) – Sim.
NARRADORA – A Mãe abre a mala do carro, tira as coisas das meninas, e elas iam começar logo a correr, mas os pais chamam-nas. Dão abraços e beijos aos pais e prometem portar-se bem. Os pais das meninas combinam ligar-lhes mais tarde, e ficam a falar mais um pouco com os pais de Rita. Elas começam logo a correr, e levam as coisas ao quarto onde vão ficar com a amiga.
RITINHA – Querem dormir no meu quarto, ou num quarto separado?
MARTA E ISABEL – No teu.
ISABEL – Se quiseres, claro.
RITINHA – Sim. Dormimos todas juntas. A minha mãe já pôs aqui as vossas camas.
MARTA E ISABEL (sorridentes) – Uau!
MARTA – O teu quarto é enorme.
ISABEL – Sim…é mesmo.
RITINHA – É. A minha mãe diz que é um quarto de princesa!
MARTA E ISABEL (sorridentes) – É!
MARTA – O nosso quarto é muito mais pequenino.
RITINHA (sorri) – Mas também é bonito.
MARTA E ISABEL – Sim.
ISABEL – Tu tens tantas coisas…!
RITINHA (sorridente) – Sim. Muitas delas foram-me oferecidas, outras, foram as minhas tias e os meus avós que fizeram.
NARRADORA – Ritinha mostra o quarto todo, e o resto da casa. As meninas ficam encantadas com tudo o que vêem, com os objectos de decoração, com as cores, os móveis, o número de quartos, e de casas de banho, as paredes, as cortinas, as janelas, as flores e a cozinha. Tudo é enorme. As meninas da cidade não conheciam uma casa tão grande! Até tinha empregados, e Avós. Cumprimentam toda a gente, e vão para o jardim. Logo que saem, num canteirinho vêem dezenas de flores…cada qual a mais bonita, e de diferentes espécies: rosas vermelhas, rosas brancas, rosas amarelas, rosas branco pérola, rosas cor-de-fogo, rosas cor-de-laranja, rosas roxas e brancas e de outras cores misturadas; malmequeres brancos e amarelos; amores-perfeitos amarelos, roxos, vermelhos, e amarelos e roxos, amarelos e vermelhos…lindos. Ritinha diz às amigas para tocarem nas pétalas. Elas nunca tinham reparado naquelas flores, nem sabiam se existiam na cidade. E muito menos, tinham tocado numa flor. A experiência parecia-lhes interessante, mas sentiam um bocadinho de medo. Tocar em pétalas, que coisa estranha…
RITINHA (ri) – Toquem…elas não mordem!
NARRADORA – Ritinha toca suavemente nas pétalas, e as amigas seguem-lhe o exemplo. Primeiro tocam a medo…arrepiam-se e tiram logo a mão. Ritinha ri-se.
RITINHA (ri) – Toquem…vão ver como é bom…!
NARRADORA – As amigas tocam, e…incrível…ficam muito espantadas, e maravilhadas. Adoram a experiência de tocar nas pétalas.
MARTA E ISABEL (sorridentes) – Áhhh…
MARTA (sorridente) – São tão lisinhas!
RITINHA (ri) – Pois são…!
ISABEL (sorridente) – E macias…
RITINHA (sorridente) – Sim, são mesmo! Toquem nestas…
(Elas tocam nos amores perfeitos)
ISABEL (sorridente) – Áhhh!
MARTA – Parecem de veludo…
ISABEL (sorri) – Sim, pois é!
RITINHA (sorridente) – É bom mexer-lhes não é?
MARTA E ISABEL (sorridentes) – Sim.
RITINHA – E estas…olhem…!
NARRADORA – Tocam em cada flor diferente, deliciadas, e encantadas com tanta cor diferente, de um lado e de outro.
RITINHA – Agora vou-vos mostrar tulipas.
MARTA E ISABEL – O que é isso?
RITINHA – São outras flores.
NARRADORA – Vão para um canteiro cheio de tulipas lindas, de muitas cores diferentes.
MARTA (sorridente) – Áhhh…que lindas.
ISABEL (sorridente) – Parecem copinhos.
RITINHA (sorridente) – Sim. Aqui vivem algumas fadas.
MARTA E ISABEL – A sério?
RITINHA (sorridente) – Sim.
MARTA – Já as viste?
RITINHA – Já…muitas vezes. Mas elas vêem-se mais quando está sol, e quando as flores estão regadas. São um bocadinho envergonhadas…e estão sempre a sair.
MARTA E ISABEL (sorridentes) – Áh, que giras…!
RITINHA (sorridente) – Toquem na terra.
MARTA E ISABEL – Lhec.
RITINHA – Lhec, o quê?
MARTA – Tocar na terra.
RITINHA – Toquem, vão ver como é bom.
NARRADORA – As três tocam na terra, e as meninas da cidade, que primeiro ficaram um bocadinho com nojo, adoraram tocar na terra seca e na terra molhada. Aparece a Avó Materna da Ritinha, e explica às meninas como se planta uma flor daquelas. As duas ouvem atentamente, e ficam boquiabertas.
RITINHA – As minhas Avós, são mágicas.
AVÓ MÁRA (sorridente) – Querem fazer magia, também?
AS TRÊS (sorridentes) – Sim!
AVÓ MÁRA (sorridente) – Então, ajudam-me a plantar estas flores?
AS TRÊS (felizes) – Sim.
NARRADORA – Enquanto plantam com a ajuda da Avó, conversam alegremente umas com as outras. As meninas estão mesmo felizes, e a adorar a experiência. Sentem-se mesmo mágicas. Depois das flores, continuam a andar pelo campo, e vão ver os animais, na companhia da Avó Mára, e da Avó Fernanda. Os cães já conhecem, muito meigos, brincalhões, e brincam com eles, acariciam-nos, correm com eles, e atrás deles, rebolam na terra com eles, felizes, riem…é lindo ver! Já têm a roupa toda suja, mas não importa. Depois…pelo caminho encontram as galinhas que andam livres pelo campo, e os pintainhos. As Avós pegam num pintainho e põem na mão de cada uma das meninas. Elas acariciam-nos, felizes, pois nunca tinham estado com um pintainho na mão…que fofinhos...as Avós explicam como é que eles nascem, e outros assuntos. Depois…vão ao lago onde tem muitos patos, uns pretos, outros brancos, uns maiores, outros mais pequenos, lindos…começam a grasnar, elas dão-lhes de comer, e acariciam-nos contentes. Chega a hora de almoço. Mal entram em casa, todas sentem um cheirinho delicioso.
TODAS – Huuuummmm…!
MARTA (sorri) – Cheira bem!
ISABEL (sorridente) – Existe mais que um cheiro…
RITINHA (sorridente) – É a sopa de legumes, e o resto do almoço!
MARTA E ISABEL (deliciadas) – Huuuummmm…que bom!
MARTA – Nós comemos sopa todos os dias, além do prato de comida.
RITINHA – Nós também.
MÃE (sorri) – Meninas…lavar as mãozinhas, trocar de roupa, e venham comer. Está quase pronto.
NARRADORA - Estão todas felizes, lavam as mãos, mudam de roupa, e têm à sua espera uma bela sopa caseira, cheia de legumes, todos cultivados na quinta. Sentam-se à mesa, e numa conversa muito animada, comem uma sopa cheia de legumes. A Avó Mára descreve todos os legumes que a sopa tem, e mostra cada um deles. As meninas não faziam ideia que existiam esses legumes, nem que se cultivavam na terra, e comiam-se assim na sopa. Depois da sopa vem um belo petisco, que todas adoram. Comem com vontade. No fim, a sobremesa, é um delicioso gelado caseiro, feito com leite de vaca, e framboesas da quinta. As meninas adoram, e ficam a aprender mais coisas novas, que não sabiam. Com tanta brincadeira de manhã, no fim do almoço dormem um bocadinho, e quando acordam, continuam a explorar a quinta…agora...vão conhecer as ovelhas, os porcos, e os leitõezinhos, os cavalos, os póneis, os burros, os pássaros, os bois, as vacas, os coelhos, os gatos e alimentá-los. Uau! Nunca viram tanto animal junto, na mesma casa, e estava a ser tão entusiasmante, tão bom, ver os animais que elas só conheciam das histórias, ao vivo…! Que giro! E montaram com a Ritinha, nos póneis, nos cavalos e nos burros, foram passear, guiados pelos Avós, e pelo Pai da Ritinha, enquanto a mãe e as Avós foram às compras. Adoraram. Ao jantar, mais uma surpresa: uma sopa, um petisco que elas adoram, e a sobremesa, foi um bolo de nozes, da quinta. Que delícia que estava. No fim do jantar, os pais das meninas telefonam para casa da Ritinha, e muito felizes e entusiasmadas contam todas as novidades aos pais, tudo o que viram, tudo o que fizeram, tudo em que tocaram, e tudo o que comeram. Os pais riem, e ficam felizes por elas. No fim de jantar, vão todas brincar para o quarto da Ritinha, felizes, com os brinquedos e bonecos que trouxeram, mas não muito tempo, porque o soninho chega depressa. As mães e as Avós ajudam as meninas a deitar-se, e enquanto não dormem, ouvem o som dos grilos, das cigarras, e das rãs e sapos.
MARTA – O que é isto, Ritinha?
RITINHA – São as cigarras lá fora, e os sapos e as rãs e os grilos…!
ISABEL – Cantam tão bem! Mas não os vimos…
RITINHA – Pois não…eles estão nas tocas, de dia.
AS DUAS – Ááááhhh…!
MARTA – Nós já tivemos uns grilos numa gaiola, e cantavam muito.
RITINHA – Sim, mas eu nunca os tive na gaiola…
ISABEL – Pois, tens-nos aqui á porta!
RITINHA – Pois é. Gostaram do dia de hoje?
MARTA E ISABEL (sorridentes) – Sim. Muito!
RITINHA (sorridente) – Eu também estou muito feliz por vos ter aqui. Vamos dormir, está bem?
MARTA E ISABEL (sorridentes) – Sim, está bem.
RITINHA – Amanhã falamos mais, e brincamos mais, e conhecemos mais coisas.
MARTA E ISABEL (sorriem) – Sim, está bem.
RITINHA – Boa Noite.
MARTA E ISABEL – Boa Noite.
NARRADORA – Faz-se silêncio, e dormem até de manhã. Na manhã seguinte, muito cedo, as meninas acordam, bem-dispostas, e cheias de energia…mais um dia, onde certamente muita coisa nova e boa as esperava. Vestem-se, lavam-se, e vão tomar um belo pequeno-almoço, com leite de vaca fervido, e chocolate em pó, um pão feito no forno a lenha, acabado de sair, ainda a ferver, e manteiga caseira de vaca. Tudo tinha um sabor diferente do que estavam habituadas, mas adoraram. As Avós ensinam-lhes como se faz esse pão, e põem-nas a fazer, com a massa. Que bom! É tão giro…elas estão tão felizes, por estar a mexer na massa, amassar, misturar os cereais, a farinha…e fazer as bolinhas. Metem ao forno, e enquanto esperam que coza, vão com as avós ver como se tira o leite das vacas, e alimentar os animais, soltá-los. Tudo é novo para elas, e estão encantadas, felizes…tanto espaço…tanta coisa boa…tanta coisa nova! Uau! Brincam o resto da manhã com os bonecos e brinquedos na terra, no jardim, passeiam pelos campos verdes, abraçam árvores, tocam na erva, vêem bichinhos da terra, colhem flores, e frutos das árvores, conhecem e provam frutos novos, sempre com as explicações das Avós, brincam com a água fresca das fontes e do tanque...Respiram um ar muito mais puro, muito mais saudável. Realmente, a vida de campo é muito diferente da vida da cidade, mas muito melhor. As meninas passam lá mais dois dias, cheios de actividades, brincadeiras e aprendizagens, com a amiga Ritinha. Até lhes custa regressar à confusão da cidade, mas quando os pais as vão buscar, as três meninas ficam tristes…gostaram tanto que não queriam nada ir embora. Prometeram voltar em breve, à casa da amiga no fim-de-semana para brincar naquele espaço enorme, cheio de coisas boas, e os pais também foram convidados. Que belos dias estas meninas passaram na casa de campo com a sua amiguinha…

FIM
Lálá
(16/Maio/2013)


ACTIVIDADE:
E vocês? Já passaram alguns dias no campo?
Gostaram da experiência?
O que viram?
O que aprenderam de novo?
Provaram algum produto da terra? Qual ou quais?
Gostaram dos sabores?
E dos cheiros?
Tocaram em alguma coisa da natureza? Em quê? Gostaram? Como sentiram?
Podem fazer um desenho ou uma composição sobre isso.








quarta-feira, 24 de abril de 2013

CAROLINA E OS LIVROS


NARRADORA – Era uma vez uma menina que vivia numa grande cidade, onde tudo era a correr…Até o sol parecia que corria…aparecia e logo a seguir desaparecia. Os pais entravam em casa, e não paravam o dia todo…nem em casa, nem na rua…o movimento de carros era de loucos…a alta velocidade, tudo a buzinar, estavam capazes de se passarem a ferro…as pessoas mal se olhavam, e discutiam por tudo e por nada. Que barafunda. Carolina ficava nervosa com todo aquele movimento, e barulhos irritantes…quando achava que finalmente tinha os pais para si, nem que fosse por uns minutos, estes gritavam com ela, e diziam que tinham muito que fazer, não podiam brincar com ela…nas refeições falavam aos gritos uns com os outros, conversas estranhas, que ela não entendia, mas deviam ser sérias, pois eles gritavam e barafustavam…prometiam sempre que amanhã brincavam com a menina, mas esse amanhã nunca chegava. Só ficava feliz quando ia para os Avós, pois pelo menos eles ouviam todas as novidades que ela tinha para contar, e brincavam com ela. Um dia, Carolina estava com a Avó a passear no jardim da cidade, e as duas conversaram:
CAROLINA – Óh Avó…onde é que estes grandes vão com tanta pressa?
AVÓ – Olha…não sei…devem ir para casa, ou para o trabalho, ou para as compras…! Porquê?
CAROLINA – Eles vão com tanta pressa…! Não vêem nada do que está à volta deles pois não?
AVÓ – Infelizmente não. Mas tu vês não vês?
CAROLINA – Só quando vou contigo, porque os meus pais também andam sempre a correr. Porque é que eles correm tanto, Avó?
AVÓ – Têm sempre muitas coisas a fazer.
CAROLINA – E o tempo quem é?
AVÓ – O tempo…não é uma pessoa…é…o relógio…as horas…os minutos, os segundos…a noite…o dia…o mês…o dia de semana…
CAROLINA – Porque é que estão sempre a falar nele?
AVÓ – Porque todos correm contra ele…
CAROLINA – Mas se ele não é uma pessoa…porque é que correm contra ele?
AVÓ – Os adultos têm sempre muitas coisas para fazer.
CAROLINA – E porque é que fazem tantas coisas? Podiam fazer menos.
AVÓ – Pois…devia ser…mas…é muito complicado…
CAROLINA – E eu… não faço parte dessas coisas que eles têm para fazer?
AVÓ – Tu não és uma coisa, és uma menina…
CAROLINA – Sim, Avó, mas os meus pais tratam-me como se eu fosse uma coisa.
AVÓ – Como assim…?
CAROLINA – Sim…estão sempre a correr…dentro de casa, e fora de casa…eu peço-lhes para brincar comigo, dizem sempre…amanhã…amanhã…mas esse amanhã nunca é amanhã! Nunca podem. E estão sempre aos gritos um com o outro, e comigo…fazem de conta que não estou à mesa, nem em casa.
AVÓ – Óh, querida…não é possível, eles tratarem-te como uma coisa. Eles são muito ocupados, mas amam-te.
CAROLINA – Não acredito nisso, Avó.
AVÓ – É verdade!
CAROLINA – Tu, sim…tu amas-me! Tu tens tempo para mim…brincas comigo…não dizes…amanhã…e esse amanhã nunca chega. Fico muito triste quando eles fazem isso.
AVÓ – Os teus pais trabalham muito, para te dar tudo o que precisas, e amam-te muito, mesmo não tendo tempo. Não é que eles queiram…é porque não podem mesmo.
CAROLINA – Não entendo, Avó. Vocês, grandes, são muito estranhos…! Não se compreendem. Os meus amigos dizem o mesmo. É muito triste, Avó, os pais não terem tempo para nós…eu acho que tinham, ou podiam ter.
AVÓ – Tens razão, mas não penses que eles não te amam! Lembra-te que estão a trabalhar muito, para te dar boas condições de vida!
CAROLINA – Mas Avó…eu já tenho tudo. Só quero o carinho e a presença deles…só quero que brinquem comigo, um bocadinho por dia, porque passamos muitos minutos separados, depois…eu tenho saudades deles.
AVÓ – Claro, filha…é natural…eles também têm muitas saudades tuas.
CAROLINA – Então porque é que eles não deixam o trabalho por um bocadinho para estarem comigo, a brincar, ou a ouvir o que eu quero contar-lhes, sobre o meu dia, sobre o que aprendi na escola, sobre o que vi…eu começo a contar-lhes, e eles não me ouvem…mandam-me calar, ou comer, aos gritos, só falam um com o outro…parece que estão sempre zangados…!
AVÓ – Não ligues, filha…são coisas dos adultos.
CAROLINA – Eu não quero que eles trabalhem tanto…só quero que estejam comigo, e que me dêem carinho, colo…que me leiam uma história.
AVÓ – Eles não fazem por mal…!
CAROLINA – Daqui a pouco mudo para a tua casa, Avó…tu tens sempre tempo para mim, para me contar histórias que adoro…e que me fazem rir…e tens tempo para me dar carinho…para ouvir o que eu conto. Os meus pais até dizem que eu sou muito chata, que não me calo. Mas eu faço isso, para eles me ouvirem, a para se lembrarem que estou ali…que sou filha deles, nascida do amor deles…mas eu não vejo amor nenhum neles.
AVÓ – Porque é que dizes isso?
CAROLINA – Eles dizem que quando se ama, não se grita, nem se zanga um com o outro…mas eles estão sempre a gritar e zangados um com o outro…!
AVÓ – Isso é impressão tua…! Eles só estão um bocadinho chateados com o trabalho deles…
CAROLINA – E sou eu que os faço ficar chateados?
AVÓ – Não. Claro que não.
CAROLINA – Eu gostava que eles fossem como os meus livros!
AVÓ (ri) – Gostavas que os teus pais fossem livros?
CAROLINA (sorri) – Sim, porque assim, tinham sempre tempo para mim, eu podia brincar com eles, sempre que quisesse, e podia levá-los comigo para a escola…e podia…fazer-lhes festinhas a toda a hora…e…assim…eles também já não me chamavam chata, e brincavam sempre comigo.
AVÓ (ri) – Sim, querida…podes imaginar o que quiseres.
CAROLINA – Tu não gostavas, Avó?
AVÓ (ri) – De quê?
CAROLINA – Que algumas pessoas fossem como os livros para ti.
AVÓ (ri) – Sim…até seria engraçado!
CAROLINA – A ti, não precisava de te transformar em livro, porque tu já és um livro…! Lindo…cheio de imagens bonitas, cheio de palavras que são músicas…e também és um livro cheio de personagens bondosas, carinhosas, simpáticas, meigas, divertidas…
AVÓ (ri, deliciada) – Ai, que linda princesa…! Obrigada, querida…só mesmo tu.
CAROLINA (sorri) – É verdade, Avó…tu és mesmo um livro muito bom, e muito bonito! (p.c) Só sei uma coisa…não quero crescer, nunca.
AVÓ (ri) – Mas vais crescer…e é bom sinal.
CAROLINA – Não quero!
AVÓ (sorri) – Podes ser sempre um livro de histórias infantis, no teu coração, mesmo em grande…
CAROLINA – Quero ser sempre uma biblioteca de livros lindos, como tu, Avó!
AVÓ (sorri, feliz e orgulhosa) – E podes ser. É muito bom!
CAROLINA – Tu ainda sonhas, Avó?
AVÓ (sorri) – Claro que sim. Porque não haveria de sonhar…? Sonho muito, e gosto muito…até de olhos abertos…! Sonho como tu sonhas…!
CAROLINA (sorridente) – A sério?
AVÓ (sorridente) – Claro…e quando te leio as histórias, também sonho.
CAROLINA (sorri surpresa) – Pensei que os grandes não sonhavam!
AVÓ (sorridente) – Sonham…alguns…
CAROLINA – Mas eles dizem sempre que nunca têm tempo para nada…e têm tempo para sonhar?
AVÓ (sorri) – Olha, para isso…acho que sim…pelo menos à noite.
CAROLINA – Mas eles não lêem…como é que podem sonhar?
AVÓ – Sim, é verdade…o ler faz-nos sonhar…mas eles também lêem…
CAROLINA – Os meus pais não lêem...por isso, acho que também não sonham.
AVÓ – Lêem coisas mais complicadas…dos trabalhos deles…
CAROLINA – Mas acho que não sonham…ou então…são sonhos maus, não?
AVÓ (ri) – É…não devem sonhos muito bonitos, não! Deixa-os lá.
CAROLINA – Achas que eles são felizes, Avó?
AVÓ (ri) – Acho que…sim…talvez! E tu?
CAROLINA – Eu acho que eles não são felizes.
AVÓ – Porquê?
CAROLINA – Porque não sonham, e porque não lêem…e…porque…não têm tempo…e porque…não brincam comigo… (p.c) Acho que com tudo isso, não são felizes. Estão sempre com caras tristes…e zangados…é porque não estão felizes.
AVÓ (sorri) – És capaz de ter razão.
CAROLINA – E tu, Avó…és feliz?
AVÓ (sorri) – Sim, muito, e tu?
CAROLINA – Eu…umas vezes sim, outras vezes não. Queria ser sempre feliz…mas não sou sempre feliz.
AVÓ – Quando é que não és feliz?
CAROLINA – Quando os meus pais não me ligam. E sou feliz quando estou contigo, quando leio, quando ouço as tuas histórias…quando tenho o teu carinho e do Avô…
AVÓ (sorri) – Certo, mas não divides…os teus pais amam-te! Vais ver que daqui a uns tempos, as coisas melhoram.
CAROLINA – Espero bem que sim, Avó…eu peço sempre ao meu anjinho da guarda…mas acho que ele ainda não conseguiu fazer isso.
AVÓ (sorri) – O anjinho da guarda, não está na cabeça dos teus pais…! Mas ele vai dar um jeitinho, vais ver!
CAROLINA – Acho que sim…Olha Avó…o que está ali.
NARRADORA – As duas dirigem-se para um saco encostado a uma árvore.
CAROLINA – O que tem este saco?
AVÓ – Deve ter lixo…
CAROLINA – Espera…estou a ver aqui…uma folha colorida…
AVÓ – Deve ser um papel riscado.
(Carolina abre o saco)
CAROLINA – São livros…Avó!
AVÓ – Livros…?
CAROLINA – Sim. Olha quantos.
AVÓ – E vão para o lixo?
CAROLINA – Parece que sim.
AVÓ – Olha…vamos levá-los.
CAROLINA (feliz) – Siiiimmmm…vamos.
NARRADORA – A Carolina e a Avó levam o saco cheio de livros que iam para o lixo, para casa. Abrem o saco no terraço, e tiram os livros. As duas ficam espantadas e maravilhadas com as ilustrações, as cores, as palavras…limpam o pó, folha por folha, com cuidado e delicadamente.
CAROLINA – Porque é que iam para o lixo?
AVÓ – Não sei…
CAROLINA – Não estão estragados.
AVÓ – Pois não! E se estivessem estragados, também se arranjavam.
CAROLINA – Pois.
NARRADORA – A Avó e a Carolina lêem os pequenos livros, encantadas com as histórias, riem muito, lêem em diálogo, e divertem-se muito, juntas com os livros. Carolina, desde esse dia, tornou-se uma amiga inseparável dos livros, que lia em casa, e com a Avó. Enquanto lia, sentia-se acompanhada pelas personagens, interagia, dialogava e brincava com elas, e pelo menos aí, o tempo parava, ou andava mais devagar, as pessoas das histórias eram simpáticas, educadas, carinhosas, paravam e falavam umas com as outras…havia tempo para tudo!

Actividade:
E vocês? Gostam de ler?
O que gostam mais de ler?
Lêem muitas vezes?
Os vossos pais, avós ou irmãos e amigos lêem-vos histórias?
Muitas, ou poucas vezes?
Que outras pessoas vos lêem histórias?
Gostam mais de ler, ou de ouvir histórias? Porquê?
Acham que é bom ler? Porquê?
Acham que é importante ler? Porquê?
Acham que os livros podem mesmo ser nossos amigos? Porquê?
Gostavam de ser um livro? Porquê?
Se fossem um livro, como seriam? Que personagens existiria dentro de vocês?
O que fariam se encontrassem livros, como a Carolina?
Acham que na nossa sociedade poderia haver tempo para tudo? Principalmente…tempo para as amizades, para conviver…e para o carinho, e para o amor? E para o respeito por todos?
Acham que a nossa sociedade e o nosso mundo estão bem assim?
Gostavam de viver numa sociedade e num mundo diferente?
Como seria essa sociedade/ esse mundo? Escreve uma composição ou faz um desenho.
Gostavam de poder mandar na sociedade?
Se pudessem mandar, o que mudariam? O que fariam? Porquê? Escrevam ou façam um desenho.


FIM
Lálá
23/Abril/2013