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quinta-feira, 14 de março de 2013

AS OBRAS DOS VENTOS


NARRADORA - Era uma vez o vento bom, e o vento bom que era mau por ordem da rainha da Inveja. Na verdade, o vento não era mau, mas a rainha da Inveja pagava-lhe muito bem para ele fazer tudo o que ela mandasse, mas tudo o que ela mandava fazer…era mau! O vento bom ficava triste por ser mau, mas acabava sempre por obedecer, quando se lembrava que tinha uma família para sustentar. Ninguém sabia que era ela…quer dizer…só sabia pelos estragos que encontravam. A rainha da inveja vigia a sua bola de cristal, que mostra um lindo jardim, cheio de flores de todas as cores…umas sementes novas de legumes, e grita nervosa.
RAÍNHA DA INVEJA (muito zangada) – Ááááááhhhh…Que nojo…lhec! Um jardim todo florido…cheio de cores…que coisa horrorosa.
PAPAGAIO – Flores…coloridas…flores coloridas…
RAINHA DA INVEJA – Cala-te! Daqui a pouco quem vira flor és tu.
PAPAGAIO – Flor…
RAINHA DA INVEJA – Xiu.
GATO – Miau!
RAÍNHA DA INVEJA – Miau, o quê? Calem-se todos…não me desconcentrem.
CORVO (tosse) – Madame da escuridão…
RAINHA DA INVEJA – Tu também?
PAPAGAIO – Interrompida…Ááááhhh…vassoura, vassouraa…Ááááááhhhh…!
RAINHA DA INVEJA – É…cala-te, ou voa já para aí uma vassoura.
PAPAGAIO – Vassoura…voaaa…Ááááhhh…!
CORVO – Que agitação.
GATO – Amigo…não fales agora.
CORVO – Madame…posso dar a minha opinião…?
RAÍNHA DA INVEJA (olha de canto) – Não vês que eu estou ocupada…meu criado diabólico negro… (grita) Agora não.
CORVO – Mas…Madame…eu vou dizer…se não…começo já aqui aos voos contra a parede…!
PAPAGAIO – Ááááhhh…parede…parede…voo…ááááááhhhh…!
GATO – Que chato…!
RAINHA DA INVEJA - O que é que tu queres…?
CORVO – Acho muito bonito um jardim cheio de flores e cores…!
(Ela atira com uma maçã para a gaiola, nervosa e grita)
RAINHA DA INVEJA – Calem-se todos…nem mais um pio…quero tudo em silêncio…preciso de ver o que vou destruir…áh, áh, áh, áh….
CORVO – Uuiii…Isto hoje não está fácil.
CORVO 2 – Que mau feitio.
CORVO – Papagaio…nada de dizeres o que acabaste de ouvir…cala-te.
RAINHA DA INVEJA (grita) – Calem-se…! Que chatos…daqui a pouco ponho-vos lá fora.
ANIMAIS – Cruzes…!
PAPAGAIO – Cruzes…!
RAINHA DA INVEJA (grita) – Não volto a avisar…
GATO – Ela está pior que uma barata…!
PAPAGAIO – Barata…!
RAINHA DA INVEJA – Onde…?
GATO – Lá está este…vais levar já uma vassourada, queres ver…? Ih, Ih, Ih…
RAINHA DA INVEJA – Cala-te! Lá para fora.
PAPAGAIO – Lá para fora…ih, ih, ih…Gato…barata…ááááááhhhh…
GATO – Tinhas que falar…peludo irritante.
PAPAGAIO – Peludo…
RAINHA DA INVEJA – Quem?
GATO – Madame…o com penas não pode ouvir nada.
NARRADORA - Pega na vassoura, preparada para atirar ao Corvo, mas este voa mesmo a tempo para a casota e encolhe-se, murmurando:
CORVO – Cruzes…que mau feitio…
CORVO 2 – Livraste-te de boa…!
CORVO – Ela hoje está fora dela.
CORVO 2 – Só hoje?! Está todos os dias.
PAPAGAIO – Mulher das trevas…
RAINHA DA INVEJA (grita) – Veeeennnnttttoooooooooo…
PAPAGAIO – Ventoooo…Ááááááhhhh…!
VENTO MAU – Sim, Madame da escuridão.
RAINHA DA INVEJA – Vais destruir este jardim…anda cá ver… (Os dois olham para a bola de cristal) E ai de ti que deixes uma única flor de pé. Quero tudo arrancado, tudo deitado abaixo, tudo remexido, entendeste?
VENTO MAU – Sim, Madame.
RAINHA DA INVEJA – Olha que eu estou a ver-te!
VENTO MAU – Sim, Madame…
RAINHA DA INVEJA – Vai…
NARRADORA – O pobre vento mau lá vai cumprir as ordens da rainha, e pelo caminho as lágrimas caem – lhe dos olhos, triste por estar a fazer uma coisa que não queria, pois ele no fundo tem bom coração. Fica com pena das flores, mas como tem de cumprir ordens da sua malvada patroa…enche-se de força e de coragem e transforma-se num redemoinho forte, violento, levantando tudo da terra, arrancando as flores, e atirando-as contra as árvores. Ouvem-se todos a gritar. As sementinhas que estavam plantadas, foram destapadas e projectadas contra a casa. A confusão é total. A rainha da inveja, ri e aplaude feliz, saltita, bate palmas, os animais também festejam com ela ao ver a destruição. Aparece o vento bom à janela da rainha da inveja.
VENTO BOM – Então és tu, sua monstruosa, que fazes aqueles disparates…que mandas destruir tudo…! Espera aí que já vais ver.
(Sopra à janela e bate forte. Ela dá um grito)
RAINHA DA INVEJA (assustada) – Ai…o que foi isto?
VENTO BOM – Sua maldita!
GATO (assustado) – O Castelo vai arder.
PAPAGAIO – Fogo!
CORVOS – Cala-te.
GATO – Intruso.
PAPAGAIO – Intruso! Vento, vento…
GATO – Conheces?
PAPAGAIO – Vento…Ááááááhhhh…!
RAINHA DA INVEJA – Quem és tu…? Não estou a ver ninguém.
VENTO BOM – Não precisas de me ver…sua maldita…
PAPAGAIO – Ventoooo…
RAINHA DA INVEJA (sorri) – És um admirador meu?
VENTO BOM (ri) – Nunca seria um admirador teu.
RAINHA DA INVEJA – Porquê? Se eu sou a mais bonita do mundo…?
(Gargalhada do vento)
VENTO BOM (ri) – O mundo inteiro anda a ver muito mal!
RAINHA DA INVEJA – Estás a dizer que não sou bonita?
VENTO BOM (ri) – Não podes ser mais feia.
RAINHA DA INVEJA – Porque é que não te vejo?
VENTO BOM – Porque eu não quero que tu me vejas, só quero que me ouças!
RAINHA DA INVEJA – Ou apareces, ou vai-te embora.
VENTO BOM (aparece) – Já apareci, agora ouve-me calada.
RAINHA DA INVEJA (grita) – Quem és tu para me mandar calar?
(O vento dá-lhe uma fustigada e ela dá várias voltas aos gritos, e senta-se)
VENTO BOM – Já sabes quem sou, agora.
RAINHA DA INVEJA – Maldito…desgraçado!
(Outra fustigada)
VENTO BOM (nervoso) – Cala-te e ouve-me…mulher terror. O que tu fazes é muito feio. Sua monstra…! Onde já se viu? Destróis tudo o que é bonito…tudo o que está de pé…destróis o trabalho duro de pessoas simples, da terra, que sofrem, e que se dedicam com amor a cuidar da terra, do que tem…! Destróis os alimentos e as frutas de que eles se alimentam, e alimentam os que mais amam, e os que mais precisam…és horrível…! Deixas pessoas sem tecto…e ainda te ris e festejas…sua maldita…o nome está mesmo bem posto…rainha da inveja…! Tens inveja de não ter coisas tão bonitas, e de viveres neste palácio escuro, preto…não é…? Claro…! A tua maldade não tem limites, é por isso que tudo isto é escuro, e feio. Como não és feliz por viver no meio da cor, e das coisas bonitas…também não aceitas que os outros tenham coisas bonitas, e cores, que as tornam todas felizes…! Sua horrorosa! Não tens luz…e não permites que os outros tenham…porquê…? Também podes ter isso tudo, se amares…! Mas não sabes o que é isso. Nunca soubeste…só sabes o que é mau…! Nunca conheceste o bem! O bonito…que coisa mais feia…! O que tu fazes a toda a gente é muito mau.
RAINHA DA INVEJA – Mas o que é que estás para aí a dizer?
VENTO BOM – Não te faças de desentendida…sabes muito bem, que só fazes maldades.
RAINHA DA INVEJA – Amor…amor…luz...cor…Ááááhhh….lhec…que nojo!
VENTO BOM – Cala-te…vou arrastar-te, e vais conhecer finalmente a luz e a cor…e vais pedir desculpa a toda a gente a quem fizeste mal…a quem destruíste as coisas que elas tinham de melhor, e de bonito! Os jardins, as flores, as árvores, as sementes…tudo!
RAINHA DA INVEJA (ri) – Deves achar que eu não tenho mais o que fazer, se não…ser boazinha…que pesadelo!
VENTO BOM (grita) – Tu vais ver o que é o sonho…!
NARRADORA - Agarra nela, enrosca-a, e leva-a a passear. Ela grita e tenta libertar-se mas não consegue, e grita. Sempre que ela grita, o vento sacode-a. Por cada jardim destruído que passa, o Vento Bom obriga a Rainha da Inveja a reconstruir tudo, com a sua ajuda. A rainha fica nervosa, chora e grita, mas faz tudo o que o vento manda. E a eles junta-se o vento mau, que é afinal um vento bom. Num instante, com os dois ventos juntos, e a rainha da inveja, tudo fica reconstruído, novamente lindo…as sementes, plantadas, regadas, as flores também postas na terra, regadas, sacudidas delicadamente, a erva no sítio. E em cada sítio reconstruído, a Rainha da Inveja pede desculpa à Terra e aos habitantes. Os ventos estão felizes, e a Rainha da Inveja, depois de muitos gritos, e muito choro, transforma-se misteriosamente numa linda fada, sorridente, bondosa, delicada. Todo o seu castelo ganhou luz, e cor, toda a decoração está maravilhosa, é nova, com cores alegres. O jardim dela que era cinzento, sem luz, sem cor, transformou-se num espaço aberto, cheio de flores, de vida, com passarinhos a chilrear, borboletas a voar alegremente. A rainha da inveja, desde este dia, nunca mais fez maldades…muito pelo contrário, passou a ajudar todos os habitantes da aldeia à volta do castelo, com os seus poderes bons, de proteger a Natureza, ajudar nas plantações e nas colheitas, a cuidar dos animais, e das flores, e até ajudar na cozinha. Toda a gente passou a gostar muito dela, e ela nunca mais teve inveja, por isso tornou-se muito mais feliz. É isso mesmo, meninos e Adultos…a Inveja uns dos outros, pelas coisas que uns têm e outros não, não nos traz o que queremos, ou que gostaríamos de ter, e o outro tem…e os nossos dias, quando temos inveja do outro, tornam-se mais escuros, mais feios, mais frios, e sem cor. Não ganhamos nada com inveja, só sofrimento, rugas, e infelicidade! Podemos ser muito felizes com o que cada um de nós tem, se soubermos estimar, dar valor e cuidar do que temos. Não podemos ter tudo, mas se tivermos o principal: saúde, alimentos, roupa, tecto e amor, não precisamos de muito mais para sermos felizes…e não precisamos de ser as rainhas e os reis da inveja.

FIM
Lálá
(13/Março/2013)

quarta-feira, 6 de março de 2013

Os prémios.


Era uma vez umas meninas, e uns meninos, que gostavam muito de falar, e cada uma tinha uma fada. Os meninos também tinham um duende. Essas fadas e esses duendes tomavam conta das meninas e dos meninos, e sabiam tudo o que eles faziam e diziam.
Às vezes, os meninos diziam coisas feias, e desagradáveis uns aos outros, e às meninas, aos mais velhos: chamavam nomes feios, diziam coisas que ofendiam, pois só olhavam para o que as pessoas tinham de menos bonito.
Por causa disto, as pessoas que os ouviam ficavam muito tristes, e punham-nos de castigo, mas não adiantava nada! Os meninos continuavam a dizer coisas que ofendiam, às vezes não era por mal, não queriam ofender de verdade, eles só estavam a brincar, influenciados e mandados pelos traquinas duendes que se riam muito por causa disso.
As suas mamãs ficavam muito zangadas, e já não sabiam mais o que fazer.
- Ai, meu filho…quantas vezes eu já te disse para não dizeres essas coisas feias, nem chamares nomes aos meninos…? Imagina que os meninos te diziam essas coisas, e chamavam-te esses nomes, tu gostavas? – Pergunta a mamã Raquel ao seu filho Diogo, que está de castigo.
            O menino pensa no que a mamã disse. A mamã Raquel ralha:
- Não sais daqui! Estás de castigo…! Vais ficar aqui, quietinho, e calado! Até eu dizer. E pensa no que eu disse.
            O menino fica amuado e a pensar no que a mãe lhe disse. A mãe de outro menino que disse coisas feias fala com ele:
- O que é que eu vou fazer mais contigo, Hugo? Nenhum castigo funciona…?! Já te dei tantos castigo, e tu continuas a ser mau com os outros meninos, e mais grave…com os Avós…! Já te dei sapatadas, e nem assim! Que coisa mais feia…! Estás de castigo, enquanto eu penso como te vou castigar outra vez.
            Hugo fica triste e pensa sobre o que a mãe lhe diz. Os malandrecos duendes riem divertidos, por ver os meninos serem castigados, e ainda por cima, por causa deles.
As fadinhas das meninas também estão preocupadas, e querem ajudar as mamãs. Reúnem-se numa fonte, e falam sobre o comportamento dos meninos.
- Estamos aqui reunidas para encontrar uma solução para ajudar estas mamãs. – Informa a Fada Violeta.
- Sim! – Gritam em coro.
- Estas guerreiras precisam mesmo de ajuda. – Disse a Fada Asinha.
- Que guerreiras…? – Perguntam em coro.
- Não estamos em Guerra. – Responde a Fada Xailinho.
- Pois não! – Gritam todas.
- Eu sei que não estamos em Guerra, mas as Guerreiras são as mães dos meninos, que têm muito trabalho com eles.
- Áh! – Gritam todas.
- Vamos, meninas…deixem-se de explicações e pensem no que fazer. – Grita a Fada Violeta.
- Posso tocar uma música, para vocês? – Pergunta a Fada Musical.
- Não! – Todas gritam.
- Óh, que pena…eu queria tanto tocar…! – Murmura a Fada Musical, triste.
- Cala-te! – Gritam todas.
- Era só para ajudar a pensar melhor…! – Insiste a Fada Musical.
- Cala-te! – Gritam em coro.
- Mas, a música clareia o pensamento…! – A Fada Musical tenta de novo.
- Cala-te! – Gritam em coro.
- Não queremos música. – Grita a Fada Universo.
- Que más…! – Responde a Fada Musical.
- Cala-te! – Gritam em coro.
- Aaaaaiiii… - Grita a Fada Musical.
- Queremos pensar, mas contigo a falar ou a tocar, não conseguimos! – Explica a Fada Brisa.
- Mas eu… - A frase da Fada Musical é interrompida por todas a gritar outra vez:
- Cala-te!
- Óóóhhhh… - Exclama a Fada Musical.
- Meninas…deixem-se de coisas e estejam caladas…quietas…não é preciso falarem assim com a Fada Musical. Fada Musical, agradecemos a tua oferta, e sabemos que adoras tocar, que queres ajudar, mas agora não…! Agora…com silêncio é que pensamos melhor! Pensa tu também, e depois, mais tarde, se quiseres cantas. – Explica a Fada Violeta.
- Pronto, está bem…tu é que mandas!
Faz – se silêncio, todas pensam sobre o assunto, cada uma dá a sua opinião, e ficam em silêncio a pensar. A fada Branquinha sorri, de repente saltita e grita:
- Meninas… tenho uma ideia…!
            Todas sorriem e gritam em coro:
- Boa!
- Espero que seja uma boa solução, Fada Branquinha…! – Disse a Fada Rosa Vermelha.
- As minhas ideias são sempre brilhantes! – Responde a Fada Branquinha.
            Todas riem, e a Fada Violeta, a mais velha pede à Fada Branquinha que diga a sua ideia:
- Claro que sim, amiga, já sabemos que és uma Fada iluminada…Desenrola, Branquinha…conta logo!
- A minha ideia é…dar uma lição a esses meninos…é assim: quando eles disserem coisas feias…da boca deles, podem sair coisas feias, cheiros desagradáveis, pedrinhas, espirros, soluços…transformar as coisas que eles dizem de feio e de mau, em coisas também feias e desagradáveis. E da boca das nossas meninas, podem sair coisas bonitas, como cheiros agradáveis, lindas melodias, flores, estrelas, luzes, brilhantes…assim…os meninos verão que é muito melhor dizer coisas boas, bonitas, delicadas, agradáveis, que é bom serem gentis… e se o fizerem, da boca deles também só sairão coisas bonitas. O que acham?
            Todas sorriem, e aplaudem a ideia da Fada Branquinha.
- Excelente ideia, Branquinha!
- Eu disse! – Responde Branquinha a sorrir vaidosa.
            Todas olham para a Fada Violeta.
- Gostei muito da tua ideia Branquinha. Parece-me muito bem!
- Obrigada! – Agradece Branquinha.
- Sim, vamos tentar. – Recomenda a Fada Violeta.
- Quando começamos? – Pergunta a Fada Geada.
- Hoje mesmo…agora! Já sabem o que tem de fazer não já? – Recomenda a Fada Violeta.
- Sim! – Gritam em coro.
- São sempre as tuas ideias que ganham… - murmura a Fada Geada.
- Óh, não fiques com ciúmes…se não começo já por ti…os ciúmes são uma coisa feia e má! – Diz a Fada Rosa Vermelha.
- E o que é que me fazes por eu ter ciúmes? – Pergunta a Fada Geada.
- Faço-te cuspir chamas de fogo. – Responde a Fada Rosa Vermelha.
- Não! Desculpa. – Implora a Fada Geada.
            E da sua boca sai um perfume de eucalipto. Todas cheiram, e suspiram.
- Áh! Que cheirinho…
- Então funciona mesmo! – Exclama a Fada Branquinha.
- Sim! – Respondem em coro.
            E sem perder mais tempo, vão ter com os meninos. Ficam muito atentas. O menino David resmunga contra a mãe, por esta o pôr de castigo. As Fadas entram em acção, muito zangadas, e o menino engasga-se, começa a tossir, e saem da sua boca migalhas e bolinhas de pão. A mãe fica muito intrigada e preocupada. David grita muito aflito e a tossir:
- A culpa…cof…cof…é tua! Mãe bruxa.
            As fadinhas ficam mesmo zangadas, e fazem sair da boca de David pedrinhas pequeninas que lhe arranham a garganta. Da boca de Hugo quando diz coisas feias, e quando é mau com a mãe e a Avó, saem mosquitos, e da boca de Diogo saem chaminhas pequeninas. De todas as bocas sai um cheiro horrível, o pior que possam imaginar. E à medida que eles falam, e quanto mais feias são as coisas que eles dizem, mais coisas feias saem das suas bocas, como moscas, pedrinhas pequeninas, chaminhas, sabores a pimenta e a malagueta que os deixam em brasas com a língua de fora, espirram seguido, e ganham soluços. Quando as meninas falam, das suas bocas, saem estrelinhas, pintinhas, luzinhas, flores, músicas suaves, e perfumes muito agradáveis. Ninguém está a perceber nada do que está a acontecer. Nunca viram tal coisa. Hugo grita zangado:
- Mas que porcaria é esta…? – Da sua boca saem umas ervas daninhas.
            Todos começam a gritar. A Fada Geada transforma-se em rapariga. Todos ficam maravilhados com ela. Nunca a viram antes.
- Quem és tu? – Perguntam em coro!
- Áh! – Todos exclamam, ao ver a sua beleza.
- És tão linda! – Diz o Diogo.
            E da boca de Diogo sai um lindo ramo de flores!
- Mas… - Perguntam-se todos.
- Não estou a perceber nada. – Comenta a Mãe Raquel.
- O menino acabou de dizer uma coisa bonita…por isso, da sua boca, saiu este lindo ramo de flores. Enquanto ele disse coisas feias, principalmente em relação à mãe, saíram coisas feias. – Explica a Fada Geada.
- Mas das meninas só saíram coisas bonitas…não é justo. – Reclama Hugo.
- É justo sim! – Gritam as fadas, as mães e as meninas.
- Elas dizem coisas bonitas! – Explica a Fada Rosa Vermelha.
- Isto é para ensinar os meninos que não devem dizer coisas feias, nem chamar nomes feios às meninas, e aos outros. – Explica a Fada Branquinha.
- Toda a gente gosta de ouvir palavras bonitas e devemos ser sempre agradáveis uns com os outros, mas nem sempre somos simpáticos. – Ensina a Fada Musical.
- Quando dizemos coisas bonitas, sempre que pedimos desculpa quando não somos bonzinhos, sempre que dizemos alguma coisa que faça alguém feliz, se for sincero, das nossas bocas saem doces e lindas melodias, perfumes agradáveis, e cores. Quando dizemos coisas que deixam os outros muito tristes, nascem na nossa boca coisas muito feias, maus cheiros, e outras coisas de que não gostamos...nem vocês, nem os outros. Como vos aconteceu! – Ensina a Fada Asinhas.
- Não gostei nada… - Comenta David.
- Pois, e não disseste coisas mesmo nada bonitas! – Exclama a Fada Branquinha.
- Pois não! – Dizem os meninos em coro.
- Nem vocês, meninos! – Acrescenta a Fada Xailinho.
- Pois não! – Reconhecem todos envergonhados.
- Foram muito mauzinhos. – Diz a Mãe Raquel.
- Desculpa, Mamã. – Gritam todos em coro, às suas mães.
- E às meninas, não pedem? – Pergunta a Fada Universo.
- Desculpem meninas! – Pedem os meninos em coro.
- Muito bem! – Gritam as Fadas contentes.
- Está bem. – Respondem as meninas em coro.
- Humm, que cheirinho…! – Diz a mãe Rita.
- Huuuummmm! – Acrescentam as meninas.
- Que lindos! – Rematam as fadas.
- Não gostaram da experiência pois não? – Pergunta a fada Branquinha.
- Não! – Respondem os meninos em coro.
- Foi muito mau. – Comenta Diogo!
- Pois foi! – Confirma Hugo.
- Até me magoei, as pedras arranharam-me. – Diz David.
- É o que sentem as outras pessoas, que vos ouvem a dizer coisas más, e feias, e a chamar nomes nada simpáticos! – Informa a Fada Branquinha.
- Ai, que vergonha! – Comenta o menino Diogo.
- E é mesmo uma vergonha…! – Confirma a fada Asinhas.
- Se não gostaram do que sentiram, lembrem-se que as pessoas que vos ouvem a dizer coisas feias e más, também ficam tristes, e sentem-se como se levassem com pedrinhas no coração, ou chaminhas, ou ervas daninhas, migalhas ou mosquitos…e muitas outras coisas. – Lembra a Fada Universo.
- Se não querem sentir isso outra vez, e se não querem que saiam da vossa boca coisas feias, é melhor não dizerem isso, está bem? – Aconselha a fada Asinhas.
- Está bem! – Gritam os meninos em coro.
- Se disserem coisas boas e bonitas, agradáveis, toda a gente vai ficar muito feliz convosco, e vão sentir no coração coisas muito boas! – Informa a Fada Musical.
- É por isso que da boca das meninas só saem flores, luzinhas, estrelinhas, cheirinhos agradáveis, e pérolas. – Lembra a Fada Rosa Vermelha.
- Querem experimentar outra vez, meninos? – Pergunta a Fada Branquinha.
- Sim! – Gritam os meninos em coro.
            Começam todos a falar. E das suas bocas saem igualmente estrelas, luzinhas, gotinhas brilhantes, flores, bolinhas de sabão, e aromas muito suaves e agradáveis porque disseram coisas bonitas, palavras agradáveis, tinham bons sentimentos.
- Boa lição, queridas! Acho que aprenderam bem a lição! – Murmura a Fadinha Violeta, orgulhosa, ao ver o trabalho das suas meninas.
 - Muito obrigada! – Gritam as mães em coro, mais sorridentes e mais aliviadas.
- Não se esqueçam meninos! – Recomenda a Fada Branquinha.
- Estamos de olho em vocês…por isso, se não cumprirem, e se disserem coisas feias, já sabem o que vos sai das bocas. – Relembra a Fada Asinhas.
- Meninas, e meninas…não se esqueçam…se disserem palavras bonitas, se forem bons uns com os outros, amigos, se respeitarem e se forem educados com os mais velhos, papás e avós…e se tiverem bons sentimentos…só sairá da vossa boca, coisas boas e bonitas…se ofenderem os outros, se fizerem maldades uns com os outros, se não forem educados, e não respeitarem os mais velhos, da vossa boca só sairão coisas feias e más. Ao serem bons, vão sentir coisas boas no coração, vão ficar felizes, e vão fazer os outros felizes…se disserem coisas más, e se forem mauzinhos, os outros vão ficar tristes e vocês também porque não vão ter amigos. As minhas fadas andam de olho em vocês, elas ouvem e vêem tudo…dão prémios, e também dão uns pequeninos castigos, só para vos ensinar. Como fazem os papás quando vocês se portam mal! Não é…? Não se esqueçam desta lição, que é…? Digam vocês…! Portem-se bem.

FIM
Lálá
(6/Março/2013)



domingo, 24 de fevereiro de 2013

A FOQUINHA



Era uma vez uma foquinha pequenina, que vivia com os seus pais numa gota de gelo. A foquinha era feliz, e adorava viver nesse sítio gelado, cheio de neve. Mesmo com muito gelo à sua volta, a foquinha não tinha falta de amor, dos seus pais, nem de alimento, mas às vezes sentia-se sozinha, e ficava triste, porque lhe faltavam amigos. Um dia, a foquinha estava a patinar no gelo, feliz, e de repente, o gelo começa a estalar, debaixo dos seus pés.
Ela fica muito assustada:
- Mas o que é que está a acontecer? O gelo…está a partir…! (grita) Socorro…
            E afasta-se para trás, cheia de medo, encostada a um grande pedaço de gelo, para onde tenta subir mas escorrega.
- Óh, não. A mamã e o papá tinham razão. Este sítio é perigoso. Óhhh…porque é que eu não obedeci aos meus papás.
            Quando finalmente conseguiu subir para o grande gelo, suspira de alívio e ri.
- Ufa! Que susto. Aqui estou a salvo. Acho eu. Só não percebi porque é que o gelo estava a partir.
            De repente, o gelo parte mais, e da água salta outra foquinha, aos gritos. A foquinha olha muito atenta, surpresa e um pouco assustada.

- Ai, que sufoco! Pfff…! Ai…finalmente estou em terra. Estou. Sim…em terra…quer dizer…em gelo!
            Olha em volta, e repara na foquinha que está em cima do gelo. As duas foquinhas falam uma com a outra.
- Olá!
- Olá!
- Estou a ver-me ao espelho?
- Onde estás a ver o espelho?
- Ai, tu és uma foca?
- Sim, e tu quem és?
- Sou uma foca.
- Ai, tu existes mesmo?
- Claro que sim, se não existisse não me estavas a ver, nem estaríamos a falar.
- Sim, pois é. É verdade.
- Mas de onde saíste?
- Do gelo. E tu vives aqui?
- Sim, vivo naquela casinha de gelo…aquela gota. Não és daqui?
- Não. Vim aqui parar…olha, ainda não sei bem como. Mas fugi de um tubarão.
- Ai, que medo…!
- Sim, é mesmo, mas ele aqui não me encontra.
- Espero que não. Então foste tu que partiste o gelo?
- Sim, tinha de encontrar uma saída. Já estava a ficar cansada.
- Pois!
- Há por aqui algum sítio onde me instalar um pouco? Só para descansar…
- Sim, há. Anda. Vou servir-te de comer, beber, e indico-te um sítio onde vais poder descansar.


As duas conversam alegremente, pelo caminho até uma gruta de gelo, onde tem muitas tendinhas de gelo para viajantes que passem nessa aldeia gelada. É um sítio muito confortável e tem lá tudo. Comida, bebida, camas confortáveis, salas de convívio, casas de banho, piscinas, e música.

A foquinha tinha acabado de ganhar uma nova amiga, e passa o resto da tarde, a brincar com ela, e a conversar, a rir, a mergulhar nas piscinas. De repente a foquinha fica triste, porque pensou que a sua amiga tinha de ir embora.
- Estás triste?
- Um bocadinho.
- Porquê?
- Tu vais embora não vais? – A choramingar – E eu vou ficar outra vez sem amigas para brincar. Óh…eu sinto-me muito sozinha! E estava tão feliz de te ter aqui.
- Não! – Sorri - Eu não vou embora! Quer dizer…vou, mas volto muito em breve para brincar contigo.
- A sério?
- Sim! Claro que sim.
Aparece outro casal de focas muito preocupado, à procura da filhota, a nova amiga
Ela grita:
- Papá…Mamã…estou aqui.
            Os pais vão a correr ter com ela. Agora é que a nossa foquinha ficou mesmo triste. A foca Mãe grita, preocupada:
- Onde estavas metida…?
- Estava aqui, mamã…
            O pai resmunga:
- E quem te deu autorização para te afastares…?
- Desculpem, Mamã e Papá…mas tive de fugir de um tubarão que me estava a perseguir. Encontrei aqui uma saída, e uma nova amiga. Este sítio é muito bom. Mas como é que me descobriram aqui?
            A mãe responde:
- Seguimos o teu cheiro…foi por sorte que te encontramos. Alguma coisa me dizia que estavas aqui. Acontece com todas as focas pequenas.
            A Mãe e o pai ralham:
- Não devias ter saído da nossa beira.
- Já te dissemos muitas vezes que essas brincadeiras malucas são perigosas!
- E já te dissemos muitas vezes para não te afastares de nós, sem nos dizeres.
- Deixaste-nos muito preocupados! Isso não se faz.
            A foquinha está envergonhada:
- Desculpem…! Não fiz por mal. Estamos longe de casa?
            Os pais respondem em coro:
- Sim, um pouco.
            O pai acrescenta:
- Agora temos de encontrar outro sítio…mais tarde tentaremos voltar ao nosso, se for possível.
            A foquinha sugere:
- Ficamos aqui mesmo. A minha amiga mostrou-me um sítio muito bom, para descansarmos. Aqui…venham ver.
            A nossa foquinha abre um grande sorriso, ao saber que a sua nova amiga estará ali por mais tempo, e assim, terá com quem brincar. Os pais cumprimentam a nova amiga da filha, e a foquinha indica-lhes o caminho da grutinha. Os pais ficam maravilhados com a grutinha, e instalam-se lá, felizes. As duas foquinhas pequenas, estão felizes, e brincam juntas, enquanto os pais se instalam, descansam, alimentam-se, e conhecem os vizinhos. Os pais da nossa foquinha estão orgulhosos pelo que a filha fez, e tornam-se também grandes amigos. Depois desse dia, a foquinha e os pais não saíram mais dessa aldeia. As duas pequeninas tornam-se amigas inseparáveis, brincaram sempre debaixo de olho dos pais, sempre perto, e divertiam-se muito! Que sorte teve esta foquinha! Sentia-se tão sozinha, e ganhou uma nova amiga, que fugia de um terrível tubarão.
FIM
Lálá
(23/Fevereiro/2013)