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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

AS CORES DAS LÁGRIMAS


NARRADORA - Era uma vez um pintor, solitário, tristonho, que vagueava pelas ruas, pintando o que via. Mas fazia-o já há muito tempo, e estava cansado de pintar sempre as mesmas coisas: prédios, pessoas, árvores, flores, e bancos de jardim, aves que sobrevoavam os céus, e sol, e chuva. Ultimamente, pintava só por pintar. Também já ninguém reparava nele, e isso ainda o deixava mais triste. Um dia, estava perdido nos seus pensamentos, a olhar para uma folha de papel no seu cavalete, e para as muitas cores. Suspira. Estava tão triste, tão triste, que deixou cair uma lágrima, e pintou um palhaço triste, vestido com roupa preta, igualmente com uma lágrima. Como estava mergulhado nos seus pensamentos, não reparou que uma menina estava a observá-lo, silenciosa, e muito pensativa. O pintor observa o desenho que acabou de pintar.
PINTOR (triste) – Óh…está perfeito…! (p.c) Perfeitamente horrível como eu!
MENINA – Desculpa…
(O pintor olha para a menina)
PINTOR (triste) – Uma boneca…Olá…! Saíste de alguma pintura minha…? Não me lembro de te ter pintado.
MENINA – Não. Não sou uma boneca…e acho que nunca me pintaste.
PINTOR (triste) – Olá menina linda!
MENINA – Olá.
PINTOR – Já estavas aqui há muito?
MENINA – Sim, algum. Estava a ver o que pintaste.
PINTOR – Óh! Não te vi.
MENINA – Eu sei…estavas a olhar para o papel.
PINTOR – Sim…não sabia o que pintar!
MENINA – Podes pintar muitas coisas.
PINTOR – Costumava pintar muitas coisas, mas já há uns dias que nunca sei o que pintar…daqui…já não gosto de pintar nada!
MENINA – Mas onde está o palhaço que pintaste?
PINTOR – Na minha imaginação…ou…na minha mente…não sei…algures por aqui dentro.
MENINA – Eu não vejo nenhum palhaço por aqui…!
PINTOR – Pois não, mas sabes…ele é o meu espelho.
MENINA – Mas o espelho dá uma imagem igual a nós, que nos vemos ao espelho…ele mostra como estamos vestidos, e mostra se estamos penteados, ou despenteados…!
PINTOR – Não mostra só o que temos vestido, nem se estamos penteados, ou despenteados. Mostra também a imagem que temos de nós mesmos.
MENINA – Mas a imagem que temos de nós mesmos, é a que vemos no espelho.
PINTOR – Não. A imagem que vemos nos espelhos mostra só uma parte do que somos.
MENINA – Como é que só mostra uma parte…? Nós vemos tudo! Vemos a nossa cara, a nossa pele, o nosso nariz, a nossa boca…as orelhas…o cabelo…tudo!
PINTOR – Sim, tens razão, normalmente só usamos o espelho para vermos como estamos e como somos, por fora, para ver se estamos bem vestidos, e limpos. Mas ele não mostra só a nossa parte de fora. Os nossos olhos, também são espelhos. E esses permitem-nos ver a imagem que temos fora…como somos…mas principalmente, mostram-nos como somos por dentro…o que sentimos…as nossas tristezas, alegrias…!
MENINA – Mas essa imagem, desse palhaço não és tu, por isso ele não mostra o que tu és.
PINTOR – Mostra, sim! Mostra a parte que os nossos outros espelhos mostram.
MENINA – Mas a cara que pintaste não é tua.
PINTOR – Pois não, porque tem uma máscara.
MENINA – E porque é que puseste uma máscara?
PINTOR – Porque os meus olhos quiseram que esta imagem tivesse uma máscara.
MENINA – Para quê?
PINTOR – Para não verem a minha tristeza.
MENINA – Mas vêem na mesma. Porque esse palhaço que pintaste, se és tu, como dizes, está muito triste.
PINTOR – Mas eu não digo a quem vê, que este palhaço sou eu! Por isso é que eu pus uma máscara…para não verem que sou eu. 
MENINA – E porque é que não dizes que és tu?
PINTOR – Porque não quero que as pessoas vejam que estou triste.
MENINA – Porquê?
PINTOR – Porque se eu estiver triste, ninguém vai reparar em mim…aliás, já ninguém repara. Nem nas pinturas que faço.
MENINA – Porque é que não reparam nas tuas pinturas, nem em ti?
PINTOR – Eu acho que é porque já me verem aqui há muito tempo. E eu também já estou aqui há muito.
MENINA – Eu reparei na tua pintura! (p.c) Mas está vestido todo de preto, e tu não!
PINTOR – A minha roupa não é preta, mas o meu coração está vestido de preto. E os meus espelhos puseram no papel a minha tristeza…
MENINA – Mas tinhas tantas cores, porque é que só pintaste de preto?
PINTOR – Pois tinha, muitas cores, mas quis pintar de preto.
MENINA – Porquê?
PINTOR – Porque quando estamos tristes, as cores deixam de existir para nós…tudo se torna escuro, sem cor, sem vida.
MENINA – E tu estás triste?
PINTOR – Sim, muito triste.
MENINA – Porquê?
PINTOR – Porque…porque…não sei…por muita coisa. (p.c) Por exemplo, não sei o que pintar.
MENINA – Mas já pintaste o palhaço de máscara e vestido de preto!
PINTOR – Mas isso foi só para aliviar a minha tristeza.
MENINA – E a tristeza pode ser pintada?
PINTOR – Sim! Todas as nossas emoções têm uma cor.
MENINA – E as lágrimas também?
PINTOR – Sim.
MENINA – Mas eu vejo as lágrimas transparentes!
PINTOR – São transparentes aos olhos, mas carregam uma cor, ou várias cores…depende do que te faz chorar.
MENINA – Mas eu nunca vi nenhuma cor quando choro!
PINTOR – Quando fores mais crescidinha verás. Algumas lágrimas têm verdadeiros arco-íris.
MENINA (sorri) – Áhhh, que lindo! (p.c) E a tua lágrima de há bocado…tinha uma cor, várias cores, ou era um arco-íris?
PINTOR – Tu viste a minha lágrima?
MENINA – Vi.
PINTOR – Mas esta da imagem?
MENINA – Primeiro, vi a tua verdadeira…quer dizer…as tuas lágrimas, enquanto pintavas!
PINTOR – Viste?
MENINA – Sim, mas não vi nenhuma cor…eram transparentes.
PINTOR – Óh, que vergonha…!
MENINA – Que vergonha o quê?
PINTOR – Chorar!
MENINA – Chorar, é uma vergonha?
PINTOR – É.
MENINA – Porquê?
PINTOR – Um homem não chora…!
MENINA – O quê?
PINTOR – É muito mau, e feio chorar…! Principalmente um homem.
MENINA – O quê?
PINTOR – Sim.
MENINA – Que patetice! Porquê?
PINTOR – É o que dizem.
MENINA – Mas é mentira!
PINTOR – Só as meninas é que choram…os meninos não…! Os meninos são fortes!
MENINA – Que asneira…! Quem é que te ensinou isso?
PINTOR – Todos os adultos…! Os meus pais, os meus Avós…e todos os homens que ainda por aí.
MENINA – E tu acreditas nisso?
PINTOR – Sim…
MENINA – E achas bem?
PINTOR – Não sei…eu por acaso até acho um pouco vergonhoso…!
MENINA – Porquê…?
PINTOR – É o que dizem, e eu também acho.
MENINA - Mas os meninos não têm lágrimas?
PINTOR – Acho que sim!
MENINA – Com certeza que sim.
PINTOR – Mas não podemos mostrá-las.
MENINA – Porquê?
PINTOR – Porque é coisa de fracos.
MENINA (ri) – Porque é que estás a dizer tantas asneiras?
PINTOR – Eu…? A dizer asneiras?
MENINA – Sim, isso é uma asneira.
PINTOR – Achas?
MENINA – Acho! Os homens e os meninos têm lágrimas, também têm de as usar. E está mal serem só as meninas a chorar. Não é nada vergonhoso chorar, nem mostrar lágrimas… (p.c) Tu estavas a chorar…e achas que isso é vergonha, que os meninos não podem chorar?
PINTOR – Estava distraído. Eu não queria que elas caíssem.
MENINA – Mas se caíram, não adiante nada ficares envergonhado, não vais voltar a metê-las nos olhos. Se caíram é porque tinham de cair.
PINTOR – Achas?
MENINA – Sim, é porque estavam a mais!
PINTOR – Mas não podiam.
MENINA – Olha, desculpa, mas tu devias era ter vergonha, e ficar zangado por estares triste, e não deixares as lágrimas caírem só porque és menino, e só porque te disseram isso, que não se pode mostrar as lágrimas…e essas asneiras todas.
PINTOR – Achas?
MENINA – Acho. E não te sentes melhor agora, depois de te terem caído as lágrimas?
PINTOR – Humm…!
MENINA – Responde, sim ou não…mas de verdade!
PINTOR – Humm…!
MENINA – Vá lá.
PINTOR – Pronto…está bem…sim, sinto-me melhor agora, depois delas terem caído.
(A menina saltita de alegria, e sorridente).
PINTOR – Ai, estás contente por me ver triste?
MENINA (ri) – Não…estou contente porque disseste que choraste e que te sentiste melhor depois disso. (p.c) Se os homens e meninos não choram é porque não têm sentimentos.
PINTOR – Achas que não?
MENINA – Tenho a certeza…porque eu já vi muitos meninos a chorar, quando estão tristes!
PINTOR – Mas esses são bebés.
MENINA – E qual é a diferença? Depois ficam grandes…mas que eu saiba, continuam a ter lágrimas, ou não?
PINTOR – Sim…temos lágrimas em qualquer idade.
MENINA – É muito feio quando não as mostram, quando é preciso!
PINTOR – Achas?
MENINA – Acho! (p.c) Olha, porque é que pintaste a lágrima dele, de preto?
PINTOR – Porque as minhas lágrimas estavam carregadas de preto.
MENINA – Mas o preto é uma cor muito pesada, escura…não tinhas outras cores?
PINTOR – Tinha, mas naquele momento, por causa da minha tristeza as minhas lágrimas eram pretas.
MENINA – E porque é que elas te caíram?
PINTOR – Porque estou muito triste. E como te disse, quando estamos tristes, as cores desaparecem.
MENINA – Mas o que é que te fez estar tão triste…? Tu não gostas de pintar?
PINTOR – Gosto, sempre adorei pintar…mas não me sai nada!
MENINA – Isso deixa-te triste?
PINTOR – Sim, claro.
MENINA – Mas não precisas de ficar triste, só por causa disso, porque é muito fácil…se já pintaste tudo daqui, muda de sítio, para veres outras coisas. (p.c) Eu duvido que já tenhas visto tudo o que há aqui. A cidade é muito grande! E tu só estás neste sítio.
PINTOR – Já andei por outros sítios na cidade.
MENINA – Podes pintar muita coisa.  
PINTOR – Daqui já pintei tudo. Já não acho nada bonito.
MENINA – Ainda não me pintaste a mim.
PINTOR – Pois não…! Tens razão.
MENINA – Aí está uma coisa diferente, neste espaço para onde já vens há muito tempo, e onde dizes não ver nada de bonito.
PINTOR – Tens toda a razão!
MENINA – De certeza que também há outras coisas…que te escaparam aos olhos, porque se estás triste, a cor preta das tuas lágrimas não te deixa ver.
PINTOR – Pois é!
MENINA – Então, porque não me pintas a mim…? Eu sou uma coisa diferente, não sou?
PINTOR (sorri) – Sim, pois és! Eu nunca te vi por aqui. Se calhar nem existes mesmo.
MENINA – Existo sim…queres ver?
(A menina abraça o pintor e dá-lhe um beijo na cara).
MENINA (sorri) – Sentiste o meu abraço e o meu beijo?
PINTOR (sorri, enternecido) – Sim, querida, senti…obrigado.
MENINA (sorri) – Então…pinta-me!
PINTOR (sorri) – Posso pintar-te?
MENINA (sorri) – Sim. Onde queres que me sente?
PINTOR (sorridente) – Aqui…neste banco…! Se faz favor.
(O pintor põe um banco alto e redondo em frente aos olhos dele, e manda sentar a menina).
MENINA – Mas olha…não me pintes de preto, está bem?
PINTOR (sorri) – Está bem.
NARRADORA – O pintor olha fixamente para a menina, linda…delicada, parece uma bonequinha. Ele sorri constantemente, enquanto a pinta com cores, pede-lhe para ela sorrir. Está igualzinha. O pintor sorri orgulhoso.
PINTOR (sorridente) – Anda cá ver…!
(A menina levanta-se, olha para o desenho, ri)
MENINA (a rir) – Está mesmo igual a mim. Sou mesmo eu!
PINTOR (sorridente) – És tão bonita…pareces uma bonequinha.
MENINA (sorri) – Eu sei. Isso é o que toda a gente diz.
PINTOR (sorridente) – E é verdade.
MENINA (sorridente) – Assim já gosto mais da tua cara.
PINTOR (surpreso) – Mas…não gostavas da minha cara?
MENINA – Quer dizer…da tua cara, gostava…mas não triste como estavas. (p.c) Agora estás a sorrir, a tua cara fica mais bonita, e mais luminosa.
PINTOR (sorri) – Obrigado.
MENINA – E agora, se pintasses outra vez o palhaço, que dizes ser o espelho do teu coração, ainda pintarias de preto?
PINTOR (sorridente) – Humm…não. Agora, teria muita mais cor.
MENINA (sorri) – A sério…? Porquê?
PINTOR (sorridente) – Porque estou mais feliz.
MENINA (sorri) – Porquê?
PINTOR (sorridente) – Porque tu apareceste. E mostraste uma coisa nova para pintar, num sítio para onde já venho há muito tempo, e não via nada de bonito.
MENINA (sorridente) – Eu disse-te, que ainda não tinhas visto tudo, de certeza!
PINTOR (ri) – E tinhas toda a razão.
MENINA (sorri) – Há sempre alguma coisa de diferente, nos sítios onde vamos sempre.
PINTOR (sorri) – Sim, só não podemos ter tristeza nos olhos, nem no coração.
MENINA – Pois é! (p.c) E eu tenho cores?
PINTOR – Sim, muitas cores suaves, bonitas, alegres e luminosas.
MENINA – Tu vês essas cores?
PINTOR (sorri) – Sim. (p.c) No sorriso, no olhar…! (p.c) Tu és uma menina feliz, não és?
MENINA (sorri) – Sim, muito feliz.
PINTOR – Que bom!
MENINA (sorridente) – Tenho tudo para ser feliz. Tenho saúde, tenho uns pais e uns avós e uns manos que me amam…tenho tias e tios, tenho casa, tenho conforto, tenho comida, bebida, roupa, calçado, brinquedos, livros e um cãozinho que adoro.
PINTOR (sorri) – Muito bem!
MENINA – E tu, não és feliz?
PINTOR – Nem sempre, querida.
MENINA – O que te falta?
PINTOR – Boa pergunta…!
MENINA – Tens tudo o que eu tenho?
PINTOR – Sim.
MENINA – Eu acho que o que te falta é veres coisas diferentes.
PINTOR – Sim, deve ser isso.
MENINA – Devias andar por mais sítios, para que outras pessoas vejam as tuas pinturas tão bonitas.
PINTOR (sorri) – São bonitas? (p.c) Achas…?
MENINA – Sim.
PINTOR (sorri) – Obrigado. (p.c) Escolhe as que quiseres, que eu ofereço-te.
MENINA – Não…tu vais vender isto tudo, tenho a certeza.
PINTOR – Óh, linda bonequinha…bem gostava de vender isto tudo, mas já há muito que não vendo.
MENINA – Mas não podes continuar a achar que não vais vender. Tenho a certeza que vais vender. (p.c) Olha, anda comigo, que vou mostrar-te uns sítios diferentes, com coisas muito bonitas para tu pintares, e venderes.
PINTOR (sorri) – Óh, que maravilha! A sério…? (p.c) Muito obrigada.
MENINA – Anda.
NARRADORA - A menina ajuda o pintor a arrumar as coisas, e dá-lhe a mão. O pintor está muito mais feliz. Os dois conversam alegremente pelo caminho. A menina leva-o a uns espaços verdes, onde ela vive, com grandes campos, de várias cores, plantações de milho altas, espantalhos que parecem pessoas, castanhas pelo chão, cabacinhas, abóboras, animais que pastam, árvores, caminhos de terra, ervas, cascatinhas. Vê-se montanhas a toda a volta, umas mais altas, outras mais baixas, ao fundo umas pequenas aldeias a toda a volta…casinhas que mais parecem presépios. O som da água é delicioso, e o chilrear dos passarinhos…tudo embala os sentidos. O pintor está maravilhado, completamente rendido àquela paisagem maravilhosa.
PINTOR (sorridente) – Uau! Parece que estou noutra dimensão!
MENINA (sorridente) – É lindo, este espaço não é?
PINTOR (sorridente) – Sim!
MENINA (sorridente) – O viver neste espaço também me deixa muito feliz.
PINTOR (sorridente) – Eu também ficaria.
MENINA (sorridente) – Então, olha…fica aqui à vontade, a pintar…tudo o que quiseres, tudo o que vês, que eu vou para almoçar, mas no fim de almoço venho ter aqui, pode ser?
PINTOR (sorridente) – Claro que sim, vai à vontade!
MENINA – Queres que te traga o meu almoço, e a minha bebida?
PINTOR (ri) – Não, querida, obrigado. Eu tenho aqui…!
(O pintor mostra. O pai da menina chama-a).
MENINA – Tenho de ir…até já. Diverte-te, e bom almoço para ti também.
PINTOR (sorridente) – Obrigado.
NARRADORA – A menina vai almoçar. O pintor também come o que levou, e bebe, enquanto aprecia a paisagem, maravilhado. No fim do almoço, começa a pintar, numa grande felicidade. Usa cores com gosto, e pinta o que vê. A menina volta para a beira dele, contente, e ele mostra o que pintou. Os pais da menina querem conhece-lo, e vão ver também. Ficam estupefactos com a beleza e a perfeição das pinturas. O pintor promete voltar. No dia seguinte, a menina aparece na cidade, e vai ter com o pintor, que está a tentar vender.
MENINA – Bom Dia, já vendeste alguma coisa?
PINTOR (sorridente) – Bom Dia! (p.c) Ainda não!
MENINA – Deixa-me ficar aqui contigo, e vais ver como vais vender.
NARRADORA – Os dois conversam alegremente, e as pessoas que passam, que já não paravam, voltaram a parar, e a apreciar as lindas pinturas do pintor. A menina sorri e cativa as pessoas. Muita gente elogia, e compra os quadros. Nesse mesmo dia, o pintor vende dezenas de quadros que pintou no dia anterior. Ao fim do dia, o pintor ganhou um bom dinheiro, como já não ganhava há algum tempo.
PINTOR (sorridente) – Óh, minha boneca…nem sei como te agradecer!
MENINA (feliz) – Vendeste tudo! Que maravilha. Eu disse, que ias vender tudo!
PINTOR (sorridente) – E tinhas toda a razão. (p.c) Muito obrigado! Tu deste-me sorte! (p.c) Também, és tão simpática, e tão bonita que toda a gente repara em ti.
MENINA (sorri) – Agora, usa a tua imaginação para continuares a fazer quadros tão bonitos.
PINTOR (sorri) – Sim, farei isso!
MENINA – Amanhã venho outra vez, para te ajudar a vender. Posso?
PINTOR (sorridente) – Claro que sim, minha princesa…tenho todo o gosto.
MENINA (sorridente) – Eu sei que vais pintar coisas muito bonitas. (p.c) Posso pedir-te uma coisa…?
PINTOR (sorridente) – Sim…diz…!
MENINA – Pinta uma lágrima, que seja o espelho do teu coração.
PINTOR – Está bem. E ofereço-te amanhã.
MENINA (sorridente) – Boa, obrigada. (p.c) Até amanhã.
PINTOR (sorridente) – Até amanhã.
NARRADORA – O pintor sorri, e as lágrimas caem-lhe dos olhos, de felicidade. Pinta uma lágrima enorme, e dentro dela, pinta-se a ele, e à menina, com um grande sorriso, e à volta uma cascata, cheia de cores alegres, salpicos de brilho prateado…tão bem feito, tão lindo, que parece uma verdadeira cascata de água colorida. Faz outra pintura, com os traços gerais da sua cara, e dois olhos enormes, dos quais brotam várias lágrimas pintados com cascatas de cores. Na manhã seguinte, toda a gente repara nesses dois quadros, e ficam maravilhados, boquiabertos, emocionados, enternecidos. Pedem para tirar fotos, e pedem para fazer os mesmos quadros, personalizados para cada pessoa. Ele pinta com todo o gosto, e vende centenas deles. A menina sempre presente. Uma tarde, uma senhora que lhe comprou um dos quadros dos olhos, com lágrimas, perguntou ao pintor:
SENHORA – Desculpe perguntar-lhe isto…mas…é sua filha, a menina?
PINTOR (sorri) – Sim, é minha filha do coração!
SENHORA – É esta menina?
MENINA – Sou.
SENHORA (sorri) – Que linda que ela é!
MENINA (sorri) – Obrigada.
SENHORA (sorri) – E o seu quadro…o que significa?
PINTOR – Significa que a minha filha do coração...devolveu-me a alegria de viver e de pintar, ensinou-me a ver coisas novas...
MENINA – E significa que as lágrimas dele agora têm cores. (p.c) É sinal que está feliz.
PINTOR (sorri) – É isso mesmo.
SENHORA – Lágrimas com cores…? Que eu saiba, elas são transparentes, a não ser que se use maquilhagem.
MENINA – Sim, é verdade, mas cada lágrima nossa tem uma cor, ou pode ser um arco-íris de cores…ou ser pretas, escuras…frias…! Depende do que o nosso coração sente.
PINTOR – Sim, é isso! Cada sentimento, e cada emoção têm uma cor!
MENINA – Nunca viu as cores dos seus sentimentos, e das lágrimas que saem dos seus olhos?
SENHORA – Nunca outra ouvi. Mas está bem, pode ser! (p.c) São ideias de artistas.
MENINA – Se a senhora está feliz, as suas lágrimas têm cores alegres, e suaves…muitas cores…são bonitas…pode ser uma cor de cada vez, ou ter milhares de cores diferentes…luminosas… (p.c) Se está triste, as suas lágrimas são pretas, ou cinzentas…todas as cores escuras.
PINTOR (sorri) – Isso mesmo!
SENHORA (surpresa) – Nunca tinha pensado nisso!
MENINA – Não me diga que não sabia que os seus olhos são o espelho do coração…?! (p.c) Os olhos, e as lágrimas mostram o que o espelho não nos mostra.
SENHORA – Como?
MENINA – Quando se vê ao espelho, só vê a sua cara, o seu nariz, a sua boca, e os seus lábios…e a sua pele…e o seu cabelo, as orelhas…mas os seus olhos, mostram o que o seu coração sente. E você às vezes também pinta máscaras.
SENHORA – Eu…? Não, não pinto, não sei pintar.
PINTOR – O que ela quer dizer é que às vezes usa máscaras para que não descubram os seus sentimentos, por exemplo sorri quando está mesmo triste…não é?
SENHORA (sorri) – Áh, sim, claro. Todos nós usamos máscaras, algumas vezes.
PINTOR – Sim, usamos cores. Mas às vezes por dentro estamos sem cores, no escuro, temos o coração vestido de preto.
SENHORA – Sim, isso é verdade!
MENINA – Mas os espelhos, olhos…não usam máscaras.
PINTOR E SENHORA – Pois não.
PINTOR – Por muito que se queira…!
MENINA – Da próxima vez que chorar…olhe para o espelho, com os seus olhos espelhos, e veja a cor das suas lágrimas…! (p.c) As cores verdadeiras estão nesses espelhos, que são os seus olhos, e nas lágrimas que deles caem.
PINTOR – Isso mesmo!
SENHORA (sorri) – Entendi! (p.c) Grande lição! (p.c) Muito obrigada. (p.c) Continuação de bom trabalho, e parabéns pelos lindos trabalhos que faz!
PINTOR E MENINA (sorriem) – Obrigado, obrigada.
NARRADORA – A senhora leva os quadros, e o pintor continua a ter um grande sucesso. A fazer quadros lindíssimos, na companhia da menina, e a vendê-los, feliz. Imaginem qual será a cor ou as cores das vossas lágrimas, para cada sentimento. Desenhem umas lágrimas grandes, escrevam os nomes dos sentimentos e pintem das cores que quiserem. Cada lágrima, e cada sentimento têm uma ou várias cores. Tudo depende do que ele sente! Mas nem sempre as conseguimos ver. E lembrem-se…os únicos espelhos mais importantes, e mais verdadeiros, são os vossos olhos. Esses sim vêem e reflectem o vosso coração, mesmo quando usamos algumas máscaras para disfarçar os verdadeiros sentimentos e emoções que não queremos que os outros vejam, ou que temos medo de mostrar. Quem gosta realmente de nós, e quem nos entende, quem nos conhece, consegue ver sempre esse reflexo nos vossos espelhos. E mais uma coisa…nem sempre vemos bem o nosso coração, as cores dos nossos sentimentos, e o que está à nossa volta, quando estamos felizes, mas também quando estamos demasiado tristes, não vemos o que há de bonito e de diferente à nossa volta. Todas as emoções e sentimentos são bons, importantes, e têm a sua cor, que umas vezes misturam-se, formando uma linda cascata de cores, ou um arco-íris gigante, outras vezes não…parecendo apenas um quadro pintado.

FIM
Lálá
(18/Janeiro/2013)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

GAIOLAS E GUARDA-CHUVAS


NARRADORA – Era uma vez uma menina que tinha muito jeito para construir coisas. Numa tarde muito chuvosa, a menina olha pela janela e comenta aborrecida.
MENINA – Óh, não acredito! Está a chover! (p.c) Queria tanto ir lá para fora! (p.c) Onde é que os passarinhos e as borboletas estarão abrigados? (p.c) Passarinhos…abriguem-se!
NARRADORA – Um passarinho bate com o biquinho na janela muito desnorteado e bate outra vez com o bico, bate as asinhas e tenta voar, mas cai. A menina abre a janela para chegar ao passarinho, e ele deixa-se agarrar. Pega nele e mete-o na beirada coberta.
PASSARINHO – Obrigado, menina carinhosa!
MENINA (sorri) – De nada! Andavas à chuva? Isso faz-te muito mal!
PASSARINHO – Sim, a vocês humanos, pode fazer-vos mal, mas a nós…seres com penas…não faz mal. Ficamos encharcados, mas não doentes.
MENINA – Mas está a chover muito. Deviam estar abrigados!
PASSARINHO – Sim, tens razão, e tentamos, mas nem sempre temos onde!
MENINA – Mas há aí muitos sítios que são cobertos! Nos prédios, ou nas árvores…não?
PASSARINHO – É. Há, mas esses abraços são ao mesmo tempo, um perigo para nós…às vezes são armadilhas para nos apanharem e fazerem de nós…almoço!
MENINA – Mas isso não se faz!
PASSARINHO – E as borboletas e joaninhas também!
MENINA – Mas essas não se abrigam nas flores?
PASSARINHO – Nem sempre tem essa sorte!
MENINA – Coitadinho! Deste ali umas cabeçadas…não viste a janela?
PASSARINHO – Ai, vi…mas estou muito tonto da cabeça! Não consigo voar.
MENINA – Não consegues voar, porquê? Estás doente, ou ferido?
PASSARINHO – Não sei…acho que estou doente…e esta chuva não me deixa voar!
MENINA – Queres beber água ou comer umas migalhas?
PASSARINHO – Aceito!
MENINA – Vou levar-te à minha cozinha!
NARRADORA – A menina leva o passarinho na mão e faz-lhe festinhas. O pai da menina assusta-se e grita.
PAI – O que é essa porcaria que tens na mão?
MENINA – Não é porcaria, é um passarinho!
PASSARINHO – Óh, não!
PAI (grita) – Que nojo…deita já isso fora! E vai já lavar muito bem essas mãos.
PASSARINHO – Óh, sorte maldita!
MENINA – Mas pai, é só um passarinho!
PAI (enojado) – Isso transmite doenças sem fim…larga isso! Põe isso lá fora.
PASSARINHO – Doenças…? (p.c) Eu…que doenças…? Tu é que és doente, com certeza!
MENINA – Pai, isto não é um rato, nem um bicho qualquer…é um passarinho que está à procura de comida, bebida, e abrigo!
PAI (enojado) – É na mesma um transmissor de doenças. Põe-no lá fora…ele safa-se!
PASSARINHO – Que ignorância.
(Entra a Avó)
PASSARINHO – Ai, agora é que é mesmo o meu fim!
AVÓ – Estás a gritar outra vez com a tua filha!
PAI – Ela trouxe esta porcaria para dentro de casa!
MENINA (triste) – Avó, é só um passarinho que bateu com a cabeça duas vezes na janela do meu quarto…eu quis ajudá-lo…vou dar-lhe de beber e de comer, mas o pai diz que é porcaria…que só transmite doenças…e para o pôr lá fora.
PAI (chateado) – Já vai fazer as vontadinhas à menina.
MENINA – Olha, Avó…! Coitadinho!
AVÓ – Isto é inofensivo…fizeste bem tê-lo acolhido! Vou dar-lhe umas migalhas e água…e quando ele estiver bom…vai!
PASSARINHO (sorri) – Afinal era um anjo!
PAI – Não acredito! É sempre a mesma! Depois não se queixe.
AVÓ – Tu também trouxeste muitas vezes grilos e outros bichos aqui para casa, e eu nunca os pus para fora.
PAI – Eu…?
AVÓ – Não. Eu…! (p.c) Vai à tua vida. Eu sei o que estou a fazer!
PAI – Põe essa porcaria daqui para fora. Bem longe.
AVÓ – Ele não fica em cima de ti.
(A menina e o passarinho riem. O pai sai da cozinha, a Avó dá as migalhas e água ao passarinho)
PASSARINHO (suspira) – Ufa! (sorri) Que alívio!
MENINA – O pai está zangado.
AVÓ – Não ligues. Aquilo passa-lhe.
MENINA – Nunca gosta de nada.
AVÓ – Deixa-o lá…azar o dele! Eu gosto de muita coisa.
MENINA – Eu também. (p.c) Obrigada Avó.
(A Avó sorri)
AVÓ – Não custa nada…! Mas depois não vens para aqui fazer sujeira, está bem, bichinho? (p.c) Eu deixo-vos a comida lá fora.
PASSARINHO – Fique descansada.
MENINA – Avó, eu só o trouxe porque ele está doente…mas não vai sujar nada.
PASSARINHO – Que sufoco! Pensei que o teu pai ia transformar-me em carne picada!
MENINA – Avó…o pai foi mau com o passarinho! Não foi?
PASSARINHO – Ainda o dizes devagar. Pobre menina.
AVÓ – Não lhe ligues, filha.
MENINA – Avó, podes ajudar-me a construir umas gaiolas, e uns guarda-chuvas para os passarinhos que vierem parar aqui? (p.c) Para pôr ali debaixo! Porque este passarinho diz que é difícil arranjar abrigo quando está a chover. Até debaixo de prédios e disse que muitos destes abrigos são armadilhas para os homens os apanharem e comerem. (p.c) Que maldade! (p.c) Para que é que eles fazem isso? Também não gostavam de ser passarinhos e ser apanhados em armadilhas, pois não?
AVÓ – Não, mas se calhar alguns só aprendiam a respeitar os bichinhos se ficassem presos um dia.
PASSARINHO (a rir) – Ai, ainda gostava de ver!  
MENINA (a rir) – Pois era. E disse que também fazem isso às borboletas e às joaninhas… por isso, elas também podem vir abrigar-se aqui, e assim já as vemos. Mas não as prendemos, porque eu gosto mesmo é de vê-los a voar.
AVÓ (sorri) – E assim é que são mesmo bonitos. (p.c) Está bem, eu ajudo-te! Mas não sei como vais fazê-las!
MENINA – Podemos fazer em cartão…com madeira por cima, ou ninhos de pano…em cestinhas…mas as gaiolas sem porta para eles não se sentirem presos e saírem e entrarem quando quiserem.
AVÓ – Está bem! Vamos ali ver o que tenho!
NARRADORA – O passarinho saltita de alegria, e a menina leva – o na mão. A Avó remexe nas coisas, em restos de pano, e pedacinhos de madeira, arame, cartão e com a ajuda da neta fazem um ninho grande de pano e arame, várias gaiolas de cartão e de madeira, as duas numa conversa muito animada, riem e quando têm pronto levam as gaiolas e os ninhos para o terraço, debaixo de pequenas árvores, debaixo de grandes flores e de folhas de palmeiras, pousados em vasos, e espalhados pelo jardim, em zonas protegidas por plantas. A menina não cabe em si de felicidade, abraça a Avó e dá-lhe beijos carinhosos.
MENINA (sorridente) - Obrigada, Avó! (p.c) Adoro-te! com todo o meu coração!
MENINA (sorridente) – És a melhor Avó do mundo!
(As duas abraçam-se outra vez carinhosas e felizes).
PASSARINHO (feliz, deliciada) – Óh, que lindo! Parecem os meus filhotes e eu e a minha esposa… (nervoso) Ai, os meus filhos e a minha mulher…onde estarão…? Tenho de os procurar…!  
MENINA – Não sabes deles…?
PASSARINHO (nervoso) – Não…eu já volto.
MENINA – Não te preocupes…vai estar tudo bem com eles…depois volta com eles.
PASSARINHO – Sim, voltarei.
(Sai)
AVÓ – Olha, foi-se embora!
MENINA – Foi procurar a família dele…espero que encontre. Ele disse que voltava.
AVÓ – Está bem. Também espero.
MENINA – Avó, quando tiveres migalhas, trazemos para aqui numa tacinha, e outra de água, está bem?
AVÓ – Sim, está bem. Agora vamos para casa, a chuva vai cair outra vez!
MENINA – Espero que o passarinho encontre a família dele, e que se venham abrigar aqui, antes de chover outra vez!
AVÓ – Sim, vai encontrar…não te preocupes.
MENINA (sorridente) – Ai, ficaram tão bonitos…!
AVÓ (ri) – Sim, mesmo bonitos.
NARRADORA – As duas voltam a entrar em casa, e durante a noite, em que chove torrencialmente, os passarinhos, as borboletas e as joaninhas amigas do passarinho abrigam-se nos ninhos e gaiolas construídos pela menina e pela Avó. Na manhã seguinte, a menina vai lá, já não chove. Ela leva uma taça com água e outra taça com migalhas. Fica muito surpresa e feliz, com um grande sorriso ao ver a quantidade de bichinhos que se abrigaram em todas as gaiolas e ninhos disponíveis. Eles voam livres e felizes, pousam nas flores, fazem bailados em voo e nas plantas para a menina, ela está encantada e segue todos os movimentos deles. Bate palmas. Estende as mãos, e as borboletas pousam nas palmas das mãos…cada qual a mais bonita. Sorriem à menina e abanam as asinhas finas, delicadas e coloridas. Depois, as borboletas acariciam a carinha da menina, delicadamente com as asinhas, como se estivessem a dar beijinhos. A menina sorri feliz e deliciada. De seguida, as borboletas pousam nos cabelos da menina e brincam, as joaninhas pousam nas mãos da menina e nas roupas, uma pousa na ponta do nariz e levanta as patinhas como que a cumprimentá-la. A menina brinca com todas elas, e elas fazem coisas lindíssimas nas flores, nas folhas e no chão. Os passarinhos chilreiam alegremente, e as borboletas e joaninhas acompanham-nos, com coreografias de sonho. A menina aprecia-os e dança também. A Avó aprecia da janela e vai ter com ela, com a máquina fotográfica.
MENINA (feliz) – Olha, Avó! Os ninhos e as gaiolas ficaram todos cheios de borboletas, joaninhas e passarinhos!
AVÓ (sorridente) – Áááhh…que bom!
MENINA (feliz) – E olha, que lindas, que elas são todas!
AVÓ (maravilhada) – Sim…são mesmo!
MENINA (feliz) – Tira fotos, Avó! (p.c) Elas também dançam, e estiveram a brincar com o meu cabelo…e deram-me beijinhos…queres vê-las a dançar…? (p.c) Não se importam amigas? Se faz favor.
NARRADORA – As borboletas e as joaninhas repetem todas as danças, coreografias e brincadeiras que tinham feito. A Avó nunca tinha visto uma coisa tão bonita, tão harmoniosa, e tão perfeita como as danças delas. Tira fotos, e elas pousam outra vez no cabelo, nas mãos e na cara da menina. Os passarinhos chilreiam novamente e as borboletas e joaninhas acompanham-nos outra vez.
MENINA (sorri) – Ááááhhh…eles são tão lindos! Fantásticos.
AVÓ (maravilhada) – Sim, são mesmo! (p.c) Nunca tinha visto nada assim de tão espectacular.
MENINA (sorri) – A mãe natureza faz mesmo coisas bonitas, não faz, Avó?
AVÓ (sorridente) – Sim, querida! Faz verdadeiras obras de arte! Sem instrumentos…sem prejudicar um único ser vivo!
MENINA – O homem devia ser como ela, não achas Avó?
AVÓ – Sim, tens toda a razão! (p.c) Era mesmo bom se fossemos todos como ela!
MENINA – E porque é que não somos?
AVÓ – Há muita gente que é muito má com ela!
MENINA – Pois é! Estão sempre a polui-la, a queimá-la, a destrui-la… a maltratar os animais…!
AVÓ – Pois é! Infelizmente.
MENINA – Mas porque é que eles fazem isso?
AVÓ – Não sei, filha.
MENINA – Eu não faço isso…!
AVÓ – Eu também não.
MENINA – São maus.
AVÓ – Pois são.
MENINA – Nós somos boas com a Natureza…é por isso que temos aqui muitos passarinhos, joaninhas e borboletinhas.
AVÓ – Pois é. Eles são como as pessoas. Gostam de ser bem tratados, de estar em sítios agradáveis…
MENINA (sorri) – Sim. Eu também gosto.
PASSARINHO – Muito obrigado, menina boa!
MENINA (sorri) – De nada. Podem vir para aqui sempre que quiserem e precisarem de abrigo! (p.c) Eu também vos agradeço por tornarem o jardim muito mais bonito.
AVÓ (sorri) – Obrigada, bichinhos. Sejam muito bem-vindos ao nosso jardim.
MENINA (sorri) – Eles fizeram tudo para nos agradar.
PASSARINHO (sorri) – Para agradar, e para retribuir o carinho, e o abrigo, a simpatia, alimentação, a bebida…! Muito obrigado.
MENINA (sorri) – De nada. Nós também agradecemos a vossa presença aqui.
AVÓ (sorri) – Muito obrigada. (p.c) Fiquem à vontade. Convosco, os jardins e as flores ficam muito mais bonitos, ganham mais vida, mais cor, mais música! (p.c) Transmitem mais paz!
MENINA (sorri) – Sim, é verdade!
NARRADORA – E todos os dias, a Avó e a Neta passam bons momentos no jardim, a conversar com os passarinhos, as borboletas e as joaninhas, a alimentá-los e a acariciá-los. Tiram fotos e deliciam-se com as danças e brincadeiras que fazem, como forma de agradecer à menina e à Avó todo o carinho delas. E vocês? Agradecem aos outros, quando vos ajudam? Ou quando vos dão alguma coisa? Faziam o mesmo que a menina? Já construíram gaiolas para passarinhos, borboletas e joaninhas? Se construíssem, como fariam essas gaiolas, com que materiais? Se quiserem construam uma todos juntos, ou cada um de vocês, e coloquem-nas onde quiserem, vejam o que acontece! Imaginem que vocês são o passarinho da história…se fossem um passarinho, uma borboleta ou uma joaninha…gostariam de ter encontrado um sítio como esta casa? Como seria esse sítio? Se quiserem podem desenhá-lo. Gostariam de ter encontrado uma menina e uma senhora como esta da história? De que forma lhes agradeceriam? Sabem…às vezes não precisamos de fazer grandes ofertas, nem de gastar muito dinheiro para retribuir ou agradecer alguma coisa que outra pessoa nos deu, ou uma ajuda que recebemos de outra pessoa…! Basta um «obrigada, ou obrigado», um beijinho, um abraço, um desenho, uma flor, um chocolate…pequeninas coisas, só para a outra pessoa saber que foi importante para nós, e que foi boa, e que nos ajudou…e que poderá contar também connosco quando precisar! Às vezes é mesmo bom, fazermos pequenos agradecimentos, uns aos outros…e à natureza, que nos dá sempre coisas tão boas, tão bonitas, e perfeitas que muitas vezes nos passam ao lado porque andamos sempre demasiado ocupados com maldades, ou com trabalho…que não vemos. Procurem tirar cinco minutos, ou mais, por dia, pelo menos, para pensarem na terra, na natureza, e em tudo o que ela nos dá, mesmo sem merecermos...Agradeçam-lhe, tratando-a com respeito e carinho! Não a poluindo, não a estragando, não a queimando nem a destruindo. Nesses minutos que pararem a apreciá-la, pensem em tudo o que já viram, que ela vos ofereceu, de bonito e de especial. Agradeçam à Natureza o oxigénio, as árvores, pois sem elas não existíamos, a água, a terra dos solos, os produtos que nos alimentam, o mar, o céu…o sol, as nuvens, as estrelas…tudo! Tudo o que conhecem dela. Façam desenhos sobre isso. Respeitem-na para vivermos com mais saúde!
FIM
(Lálá)
16/Janeiro/2013