Número total de visualizações de páginas

domingo, 4 de novembro de 2012

O MISTÉRIO DAS GOTINHAS ANDANTES


NARRADORA - Era uma vez, uma praia deserta, perdida entre pinhais, onde viviam alguns animais: uma alcateia de lobos, coelhos, galinhas, pintainhos, joaninhas, borboletas, pássaros, gaivotas, macacos e outros mais pequenos como formigas. Entre os animais, está o Detective Gatagão…um gato metido a detective…que tinha a mania que era muito entendido nestas coisas de mistérios. Tudo está em movimento…os pássaros chilreiam, as galinhas cacarejam e passeiam com os seus pintainhos em direcção aos campos, as joaninhas voam e pousam nas flores, as borboletas também voam em volta das flores…os macacos guincham e saltam e correm e trepam às árvores, e as gaivotas foram á pesca. O mistério mais actual aconteceu hoje…a Gata Manita foi passear e ao admirar a paisagem…de repente, olhou para o chão e viu uma gota de água a andar sozinha. A Gatinha fica imóvel, e segue apenas com os olhos, muito intrigada.
GATA MANITA – Mas…o que temos aqui…? (p.c) Uma gota de água…a andar sozinha…? (p.c) Mas como é que pode ser…? As gotas de água, são gotas de água…não têm pernas. (p.c) Pelo menos…nunca vi gotas de água com pernas! Nem…a voar. (p.c) Será que…estou a ver coisas?
(Entra GATA MIMINHO)
GATA MIMINHO – Olá.
GATA MANITA (estremece de susto) – Ai…que susto!
GATA MIMINHO – Desculpa, não te queria assustar. O que estás a fazer?
GATA MANITA – Estava a…ver a paisagem! E tu?
GATA MIMINHO – Eu, vim passear um bocadinho. Queres vir?
GATA MANITA – Está bem.
GATA MIMINHO – De certeza que estavas só a ver a paisagem?
GATA MANITA – Sim, porquê?
GATA MIMINHO – Há aqui qualquer de estranho…
GATA MANITA – Já estás como o detective Gatão…para ele é tudo estranho, tudo é misterioso…e depois…no fim, tudo é normal.
(Riem)
GATA MIMINHO – É que…pela maneira como te assustaste, não me pareceu que fosse só por estares a ver a paisagem.
GATA MANITA – Mas foi. Eu estava a pensar…muito seriamente.
GATA MIMINHO – Ai sim…? Em quê?
GATA MANITA – Ááááhhh…não me apetece dizer-te. Vamos dar a volta.
GATA MIMINHO – Está bem…já percebi, não queres dizer…
GATA MANITA – É.
NARRADORA – Começam a andar e a conversar, mas a gatinha Manita sempre atenta, a olhar para o chão. E passa outra gota de água a andar sozinha. Ela pára.
GATA MIMINHO – O que foi?
GATA MANITA – Olha para o chão…
(As duas olham)
GATA MIMINHO – O que é que tem…?
GATA MANITA – Gotas de água a andar sozinhas.
GATA MIMINHO – Mas…como?
GATA MANITA – Olha bem…!
GATA MIMINHO – Estou a ver uma gota de água a andar sozinha…
GATA MANITA – Sim, e eu há bocado vi outra.
GATA MIMINHO – Há bocado não vi.
GATA MANITA – Mas vi eu.
GATA MIMINHO – Não pode ser.
GATA MANITA – Mas é!
GATA MIMINHO – Mas as gotas de água não andam sozinhas.
GATA MANITA – Pois não.
GATA MIMINHO – Vamos segui-las.
GATA MANITA – Para onde irão…
GATA MIMINHO – Olha…desapareceram ali.
GATA MANITA – Vamos lá mais perto.
(Entra um lobo, nervoso a reclamar. As gatinhas assustam-se, e escondem-se. O lobo grita)
LOBO – Não se escondam…esperem…não vos vou fazer mal.
GATA MIMINHO – É que estás tão nervoso…
GATA MANITA – E apareceste de repente…
GATA MIMINHO – Estás tão nervoso…
LOBO – Desculpem se vos assustei…vocês sabem que não vos faço mal…são minhas amigas. (p.c) Olhem…notaram alguma coisa de estranho por aqui?
AS DUAS – Sim.
GATA MANITA – Umas gotinhas andantes.
GATA MIMINHO – Era isso que estávamos à procura.
LOBO – Umas gotinhas…com pernas? Ou patas…?
GATA MANITA – Nem uma coisa nem outra.
LOBO – Mas…então como é que elas andam?
GATAS – Não sei.
GATA MIMINHO – Foram para ali.
LOBO – Humm…isto é muito estranho.
GATAS – Pois é.
NARRADORA - De repente, passa um batalhão de formigas com gotinhas de água, e a andar rapidamente de um lado para o outro. Entram e saem de uma toquinha centenas de formigas, com gotinhas de água. As gatas e o lobo seguem os movimentos delas com os olhos.
GATA MANITA – Ai, já estou a ficar tonta com tanta formiga…
LOBO – Eu também.
GATA MIMINHO – Agora gostava de ser assim do tamanho delas, para saber o que se passa lá dentro.
LOBO – Eu também.
GATA MANITA – É que já entraram e saíram mais de cem vezes…e devem ser uns milhares de formigas…
LOBO – E se lhes perguntarmos directamente o que se passa?
GATAS – Sim. Boa ideia.
(Sai uma formiga)
LOBO – Óóóóóóóhhhh…miga…
(A formiga grita assustada)
FORMIGA – Ááááááhhhh…vou ser comida…!
LOBO – Não, não…espera…ninguém te vai comer…
FORMIGA (assustada) – Aaahhh…não sei se posso confiar em ti. Com esse aspecto.
LOBO – Não julgues pelo aspecto. Não te vou fazer mal…Tu não fazes parte da minha alimentação. Só queremos saber o que passa por aqui…há muita agitação…
GATA MIMINHO – Viram por aí gotinhas de água…?
FORMIGA – Gotinhas de água…? Não faltam por aí…em cima das flores, das folhas, nas casas…mas porquê? O que é que eu tenho a ver com isso…? (p.c) É normal que haja por aí muitas gotas de água.
GATA MANITA – Mas as que estamos a falar…andam…! Viste alguma a andar por aqui…?
FORMIGA (ri) – Gotinhas de água a andar…está bem, está…! (p.c) Nunca outra vi…nem gotinhas com pernas, nem gotinhas com patas, nem…gotinhas a andar. Porquê? Vocês viram…?
GATAS E LOBO – Vimos.
FORMIGA (ri) – Era só isso?
LOBO – Porque é que há tanta agitação aí para as tocas…?
FORMIGA – Que agitação? Não sei de nada.
LOBO – Esta entrada e saída…de centenas de formigas… para aí… olha…e as gotas de água seguem-nas…!
FORMIGA (ri) – Não há agitação nenhuma…é o nosso trabalho diário para sobreviver.
GATAS E LOBO (espantados) – Como?
FORMIGA – Era só isso…? Até logo, amigos…
NARRADORA – As formigas continuam na sua agitação, e o lobo e as gatas continuam a seguir os passos. De repente, aparece o Gatarrão, todo vaidoso, a assobiar e a ler com os óculos na ponta do nariz.
LOBO – Vem aí o detective…
TODOS – Gatarrão…!
GATARRÃO (sorri) – Olá amigos…boa tarde. Como estão?
TODOS (sorriem) – Olá.
GATA MIMINHO – Temos um trabalho para ti.
GATARRÃO – Óóóhhhh…minha querida…mas que honra.
LOBO – Andam por aí…gotas…andantes…!
GATARRÃO – Gotas…andantes…? Como assim…?
GATA MANITA – Sim, gotas de água, que andam.
GATARRÃO – Humm…quando viram essas gotas…?
GATAS E LOBO – Agora.
GATA MIMINHO – Vieram por aqui…
GATA MANITO – A andar…
LOBO – E desapareceram ali, naquela toquinha…
GATA MIMINHO – Tentamos saber o que se passava, mas não conseguimos, a formiga não disse.
GATARRÃO – Mas…como eram essas gotas?
GATA MANITO – Eram gotas de água…transparentes.
GATA MIMINHO – Redondinhas…
LOBO – E mexiam sozinhas.
GATARRÃO – Sem pernas…?
LOBO E GATAS – Sim. Sem pernas.
GATARRÃO – Sem asas…?
LOBO E GATAS – Sem asas.
GATARRÃO – Não se arrastariam…?
LOBO E GATAS – Huuuummmm…
GATARRÃO – E…entram ali…?
LOBO E GATAS – Sim.
GATA MIMINHO – Olha…
NARRADORA – O Gatarrão põe a lupa e segue os passos das gotinhas.
GATARRÃO – Humm…elas…realmente…não…esperem…as gotinhas de água têm patas…
LOBO E GATAS (surpresos) – Ááááhhh…como?
LOBO – Mostra…
(O Lobo arranca a lupa e espreita)
LOBO (surpreso) – Ááááhhh…pois tem…! Olhem gatas…
(Elas espreitam)
GATA MANITA – E são pretas…
GATA MIMINHO – E fininhas…
GATARRÃO – Ei…já chega…dêem-me a lupa…eu é que estou a investigar este mistério.
(Observa outra vez com a lupa)
GATARRÃO – Esperem…alguma coisa aqui, não está bem.
LOBO E GATAS – Pois não.
LOBO – Isso já tínhamos dito.
GATARRÃO – As gotas de água…não têm patas pretas, nem fininhas.
LOBO E GATAS – Pois não.
GATA MIMINHO – Não têm patas.
GATARRÃO – Mas então…como é que elas entram aqui, e a minha lupa mostrou…patas pretas…e fininhas?!
GATA MANITA – E como é que elas entram aí…?!
GATARRÃO – A minha lupa não tem defeito.
LOBO – Será outra forma de gota de água…
GATA MIMINHO – Não pode ser…não há outra forma de gota de água.
LOBO – Quem te garante que não há outra forma de gota de água?
GATA MIMINHO – Eu nunca vi.
LOBO – Mas por nunca teres visto, não quer dizer que não haja.
GATARRÃO – A Gata tem razão. (p.c) Ora…revendo as pistas…!
(Gatarrão corre tudo outra vez, com a lupa, e mede as pegadas, e olha para o toca).
GATARRÃO – Não há gotas andantes…ora…na gruta aparecem as patinhas pretas e peludas e fininhas que se vêem cá fora…!
LOBO – Então…são as gotas de água que estão cá fora.
GATA MANITA – Mas espera aí, o que é que as formigas têm a ver com o assunto das gotas…? É que também já passaram milhares…! E para onde é que elas vão…?
TODOS – Para as tocas.
GATARRÃO – Pois…então…as patas fininhas que vemos são…
TODOS – Das formigas, claro!
GATARRÃO – Correcto.
LOBO – Mas…as gotas não são formigas, nem as formigas se transformam em gotas! Como é?
GATARRÃO – Nem as gotas andam sozinhas…assim…alguém tem de levar as gotas…ali para a toca…!
GATA MIMINHO – Esperem…gotas…formigas…tocas…!
GATA MANITA - Já percebi tudo…as gotas são levadas pelas formigas para a toca…é por isso que só vemos as suas patinhas…
LOBO – Correcto. E parece-nos que as gotas andam sozinhas, porque elas carregam as gotas para a toca…
GATA MIMINHO – Isso…e na toca…também só vemos as patas das formigas!
GATARRÃO – Esperem aí…nem tudo é assim tão claro como vocês estão a pensar.
LOBO – Espera aí…se estás a duvidar de nós, chama-se uma formiga e pergunta-se!
GATARRÃO – Muito bem pensado.
(O Gatarrão grita à entrada da toca)
GATARRÃO – Óhhh…amigas…alguém pode chegar aqui fora um bocadinho, por favor?!  
FORMIGA (grita) – Outra vez este…?! (sai) O que é que quer agora?
GATARRÃO – Eiii…calma…! (p.c) Não precisa de falar dessa maneira.
FORMIGA (grita) – Não vê que estou ocupada…?
GATARRÃO – Precisamos da sua ajuda.
FORMIGA – Depende!
GATARRÃO – Como…depende?
FORMIGA – Depende da ajuda…! (p.c) Não tenho muito tempo a perder consigo!
GATARRÃO – Muito bem, vamos ao que interessa…! (p.c) Por acaso viu por aqui gostas andantes?
FORMIGA – Gotas andantes? (p.c) O que é isso…?
GATARRÃO – Querida…são gotas de água que andam sozinhas, com patinhas pretas e fininhas, e peludas…!
LOBO – Assim como as tuas!
FORMIGA (ri) – Assim como as minhas…? O que é que têm de anormal as minhas patas…? Além de lindas…e sexys…? (Todos riem) Agradeço os elogios, mas era só para isso que me chamaram?
TODOS – Não.
GATARRÃO – Então…não viu gotas de água andantes?
FORMIGA – Não…nem de água, nem de vinho ou sumo. As gotas que vi foram de água, e as que nós apanhamos…!
GATARRÃO – Apanharam gotas de água?
FORMIGA – Sim, fazemos isso constantemente.
GATARRÃO – E como transportam as gotas de água?
FORMIGA – Ora essa…a cavalo se calhar…ou com asas…! (p.c) Com as nossas patas, é claro, como seria mais?
GATARRÃO – Carregam-nas?
FORMIGA – Claro! Com as nossas patas. E olhe que são pesadinhas…mas assim também fazemos exercício físico. (Todos riem) Mas você está bem…? A fazer-me essas perguntas estranhíssimas…não deve estar muito bem…!
GATARRÃO – Então…pistas…patinhas fininhas, pretas e peludas, gotas de água andantes…eu só vi patinhas fininhas…por baixo das gotinhas.
LOBO – Então…as gotas não andavam sozinhas.
FORMIGA – Desculpe…? Elas não andavam, nós empurramos ou carregamos as gotas.
GATA MIMINHO – Então é isso…as patas fininhas que tu viste, eram das formigas…a empurrar as gotinhas.
FORMIGA – Claro! (p.c) O que mais poderia ser…?
GATA MANITA (ri) – Eu sabia…!
GATA MIMINHO (a rir) – O Gatarrão pensava que estávamos a ver gotas de água andantes…e que as gotas de água tinham patinhas…! (p.c) Bom…no início também estranhei, pois só via gotinhas a andar, não via as patinhas das formigas, mas depois, com o evoluir das pistas, tudo começou a fazer sentido, e a construir-se na minha cabeça.
(Todos riem)
GATARRÃO – Pois…está bem! (p.c, envergonhado) Foi o que eu disse…nem tudo é o que parece!
TODOS – Verdade!
LOBO – É por isso que não devemos deitar-nos a adivinhar como são as coisas ou as pessoas, logo no primeiro olhar, e no primeiro contacto, porque a maior parte das vezes estamos errados.
GATA MIMINHO – A primeira impressão quase nunca é a mais correcta…temos a mania de ir pelo que os olhos vêem, e depois…desiludimo-nos, ou ao contrário, temos belas surpresas.
LOBO – Foi o que aconteceu quando eu conheci as minhas amigas gatas… (as Gatas olham surpresas e intrigadas, franzem os olhos como se o estivessem a fulminar) achava-as muito vaidosas, convencidas e arrogantes, mas depois, decidi aprofundar as pistas, como diz aqui o amigo Gatarrão, e ao falar com elas, percebi que afinal são boas raparigas.
GATAS (bufam) – Que palerma…!
LOBO (ri) – Estou a brincar…! Gostei de vocês no primeiro olhar, e ainda mais no primeiro contacto…
GATAS – Pois…!
LOBO (ri) – Mas já aconteceu de conhecer pessoas lindas…e depois como pessoas em si, muito feias.
GATARRÃO – Correcto. Temos de investigar primeiro!
FORMIGA (a rir) – Sim…era só isso?
GATARRÃO (sorri) – Sim. Muito obrigado e desculpe ter incomodado.
FORMIGA (sorri) – Com licença…!
(A formiga volta para a toca, olham-se)
LOBO – Esta foi boa… (ri-se)
GATA MIMINHO (ri) – Sim…gotinhas de água andantes…
GATA MANITA (ri) – Com patinhas pretas, fininhas e peludas…!
GATARRÃO (a rir) – Sim, foi mesmo muito boa…áh, áh, áh…! (p.c) Mistério das gotinhas de água andantes…desfeito! Nem tudo o que parece à primeira vista o é! Muito cuidado, meninos…investiguem sempre primeiro, antes de descreverem uma pessoa que aparece à vossa frente…! Umas vezes a pessoa é aquilo que mostra no primeiro contacto, mas outras vezes não…
(E continuam a ver as formigas com as gotinhas numa grande agitação, de um lado para o outro, e a rir). 

Fim
(Lálá)
(4/Novembro/2012)
                                  





sábado, 3 de novembro de 2012

Canto, toco ou choro?

NARRADORA - Era uma vez…um elfo que vivia nas profundezas de um imenso bosque. Um lugar onde metade era sol, outra metade era sombra. O elfo tocava e cantava durante muito tempo, e toda a gente achava que ele era muito estranho. As suas melodias até eram bonitas e agradáveis ao ouvido, mas quem lá vivia perto dele, acabava por se fartar de ouvir, e não percebiam como é que ele aguentava cantar e tocar tanto tempo. Umas vezes, ficava numa só árvore, outras vezes, saltitava e corria todas as árvores desse terreno a cantar e a tocar. Uma noite, um macaco irritou-se de ouvir o que o elfo tocava…ainda por cima, o desgraçado queria dormir, e tinha filhos pequenos, mas com aquele barulho, dessa noite, não conseguiam.
MACACO – É hoje que eu corto o pio àquela réla.
MACACA – Que réla…?
MACACO – Este ou esta que está a fazer esta barulheira…vou dar cabo dele.
MACACA – Não vais a lado nenhum…vais ficar aqui quietinho a dormir.
MACACO – Ááááhhh…isso é que não vou ficar aqui a aturar isto. Não tem nada que estar aqui a esta hora a fazer este barulho.
NARRADORA – O macaco levanta-se nervoso, e vai à janela ver de onde vem o som.
MACACO (grita) – Cala lá essa porcaria…!
(O elfo estremece, pára de tocar, intrigado, olha para todo o lado).
MACACO (grita) – Aqui, óh malvado…atrevido…!
(O elfo sorri e cumprimenta)
ELFO – Óóóhhhh…boa noite, vizinho.
MACACO (nervoso) – Boa Noite…? Boa noite…? Mas… que atrevimento…!
ELFO – Desculpe…é de noite, não é?
MACACO (nervoso) – Sim, é de noite, é!
ELFO (educado) – Precisa de alguma coisa, vizinho?
MACACO (nervoso) – Preciso que cales essa porcaria desse rádio, imediatamente.
ELFO – Rádio…? Mas…onde está o rádio?
MACACO (nervoso) – Ora…não me digas que não tens aí um rádio que não se cala…!
ELFO – Não…não tenho rádio nenhum.
MACACO (nervoso) – Não tens rádio? Mas…eu estou a ouvir uma música irritante…ou uma suposta música…barulho…! (p.c) E vinha daqui, tenho a certeza.
ELFO – Desculpe, aqui não há rádio nenhum.
MACACO (nervoso) – Então és tu, que estás a fazer barulho?
ELFO – Desculpe, eu não estou a fazer barulho. Estou a tocar e a cantar.
MACACO (nervoso) – E por acaso cantas horrivelmente mal.
ELFO – Aaaaaiiii…!
MACACO – O que foi? Dói-te alguma coisa…?
ELFO – Está a falar comigo de uma maneira…
MACACO (nervoso) – Pois…e achas que não é para menos…?
ELFO – Não.
MACACO (nervoso) – Ai não? (p.c) Então…pensa bem…estás a tocar e a cantar a estas horas da noite, quando tudo quer dormir, na paz…e tem filhos pequenos, para fazer o mesmo, mas é impossível.
ELFO – Óóóhhhh…coitadinhos…! (p.c) Mas…embale-os a ver se resolve…ou…então…meta-os no seu meio…
MACACO – O quê?
ELFO – Sim, faz-lhes bem. Os filhos gostam de ir para a cama dos pais, quando têm medo de tudo e mais alguma coisa…e querem mimo.
MACACO – O quê…? Mas que disparate.
ELFO – É verdade! (p.c) Todos os adultos dizem isso, e é bom para toda a gente…ou então…eu posso tocar para eles…! Quer?
MACACO (ralha) – Mas que palermice…achas que eu ia permitir…? (p.c) Eles precisam de silêncio, e tu estás a fazer barulho a mais.
ELFO – Ora…não seja tão mauzinho. Isto é música.
MACACO (nervoso) – Música o raio que te parta.
ELFO – Ai…que mau humor. Cruzes…venha cá mais perto…eu vou tocar uma melodia para si, para acalmar os nervos.
MACACO (grita) – Eu não quero porcaria de melodia nenhuma, quero é que te cales.
ELFO – Eiii…já nem posso tocar e cantar sossegado?!
MACACO – A esta hora não…por favor. Toca e canta de dia, mas agora…está calado.
ELFO (triste e envergonhado) – Desculpe. (p.c) Eu gostava de o poder ajudar.
MACACO – E já ajudas se te calares.
ELFO (triste) – Desculpe, mas isso não posso.
MACACO – Não podes…? Já agora…! (p.c) Então vai para outro sítio.
ELFO (triste) – Não posso parar de tocar…nem de cantar.
MACACO – Porquê?
ELFO (triste) – Porque se paro de cantar e de tocar…choro.
MACACO – Tens uns parafusos a menos…mas…é problema teu…Vai para outro lado, fazer barulho.
ELFO (triste) – Para onde?
MACACO – Não sei, nem me interessa. Há por aí muitos lugares. Vai para longe.
ELFO (triste) – Não sei para onde…!
MACACO – Arranja-te.
ELFO (triste) – Não gosta da minha música?
MACACO – Não.
ELFO (triste) – Ai, não é nada simpático…
MACACO – Eu seria simpático se tu fosses para outro lado, e nos deixasses dormir. (p.c) Por favor…para de fazer barulho.
ELFO – Mas assim choro…
MACACO – Sempre será menos barulho, do que este…
ELFO (triste) – Óóóhhhh…que sorte a minha…
MACACO – Por favor…cala-te.
ELFO (triste) – Está bem, pronto. Desculpe.
MACACO – Espero não voltar a ouvir barulho, se não…vamos ter problemas.
NARRADORA – O macaco vira costas, e faz-se silêncio. O Elfo procura outro lugar, muito triste…encosta-se a uma árvore e chora baixinho. O macaco respira de alívio. Finalmente tem silêncio. Aparece pouco depois um passarinho e vê o Elfo muito triste.
PASSARINHO – Olá, boa noite…
ELFO (a soluçar) – Boa…Noite…!
PASSARINHO – Hoje não tocas…?
ELFO (a soluçar) – Já toquei.
PASSARINHO – E porque paraste?
ELFO (a chorar) – Mandaram-me calar…e se…eu não toco, nem canto…choro!
PASSARINHO – Óóóhhhh...coitadinho! E porque é que choras tanto?
ELFO (a chorar) – Porque…porque…fico muito triste se não canto nem toco. Ninguém gosta da minha música.
PASSARINHO – Eu gosto.
ELFO (a chorar) – O macaco mandou-me calar.
PASSARINHO – Mas…porquê?
ELFO (a chorar) – Disse que…eu estava a fazer muito barulho, e ele queria dormir…e os filhos pequenos também…e que...já não são horas de estar a tocar nem a cantar.
PASSARINHO – Mas, estavas a fazer assim tanto barulho?
ELFO (a chorar) – Ele disse que siiiiimmmmmm…! (p.c) Eu só estava a tocar e a cantar.
PASSARINHO – Pois…eu gosto muito da tua música, mas olha, desculpa dizer-te…ele tem razão…já é um bocado tarde…! Tu também devias dormir.
ELFO (ainda mais triste e a chorar) – Não quero dormir.
PASSARINHO – Mas toda a gente dorme.
ELFO (a chorar) – Mas eu não quero…nem durmo.
PASSARINHO – Porquê? És diferente de nós?
ELFO (a chorar) – Sim.
PASSARINHO – Tens de descansar…! Agora descansa…amanhã tocas…e até tocas melhor se descansares.
ELFO (a chorar) – Não quero!
PASSARINHO – Óóóhhhh…mas faz esse favor a todos nós…eu prometo que amanhã venho aqui ouvir a tua música.
ELFO (a chorar) – Nãããoooo…tem que ser hoje.
PASSARINHO – Por favor…não chores…e dorme.
ELFO (a chorar) – Também não posso chorar, agora?
PASSARINHO – Não…!
ELFO (a chorar) – Não…?
PASSARINHO – Quer dizer…podes…mas não te queria ver chorar.
ELFO – Então deixa-me cantar e tocar.
PASSARINHO – Tu és tão estranho.
ELFO (a chorar) – Se eu não toco, nem canto…choro.
PASSARINHO – Mas será que não podes estar sem fazer uma dessas coisas, e simplesmente…dormir…como toda a gente faz? Pelo menos a esta hora.
ELFO (a chorar) – Não.
PASSARINHO – Porque não…? (p.c) Claro que consegues. (p.c) Tenta…dormir e amanhã vais ver que vais acordar mais inspirado e tudo…!
ELFO – Não. Eu não posso deixar de cantar nem de tocar…
PASSARINHO – Claro que podes.
ELFO – Eu não…se não esqueço-me das músicas se dormir.
PASSARINHO – Mas que disparate…não te esqueces nada.
ELFO – Esqueço sim.
PASSARINHO – Mas tens de dormir…durante os sonhos também podemos lembrar de músicas e canções, e até criar umas novas.
ELFO – Achas?
PASSARINHO – Tenho a certeza. Experimenta.
ELFO – Aaaaaahh…não sei…!
PASSARINHO – Acredita. (p.c) Fecha os olhos, e dorme…vais ver que amanhã terás muitas músicas novas.
ELFO – Ai, tenho medo…
PASSARINHO – Tens medo de quê?
ELFO – De adormecer.
PASSARINHO – Não posso acreditar.
ELFO – Do escuro…nos olhos.
PASSARINHO – O quê?
ELFO – Tenho medo de dormir por causa do escuro nos olhos.
PASSARINHO – Óh, cromo…se estás a dormir, estás de olhos fechados, nem sequer vês o escuro. (p.c) Vá…dorme.
ELFO – Óhhh…não quero.
PASSARINHO – Então se não queres, vai chatear outro, para outro lado…tens que respeitar quem quer dormir. (p.c) Até amanhã, e não faças barulho.
ELFO – Estás a mandar-me embora?
PASSARINHO – Sim. Até amanhã…
NARRADORA – O Elfo fica muito triste, e chora, por não poder cantar, nem tocar. Aparece uma Fada, linda que toca maravilhosamente bem…harpa. E outra Fada que toca encantadoramente…violino. As duas são lindas. Começam a tocar, sentadas na relva à beira de uma cascata, e o Elfo fica como que hipnotizado a olhar para elas, e embalado com as músicas. Ele apercebe-se que ninguém reclama, por elas estarem a tocar.
ELFO – Mas…que lindas…! E as músicas…Uaaaauuu…! (p.c) Ninguém as manda calar, porquê? (p.c) Elas estão a tocar e a cantar como eu. (p.c) Que injustiça…também deviam ralhar com elas.
(Ele vai ter com elas).
ELFO – Boa Noite, minhas lindas.
FADAS (sorriem) – Olá!
ELFO – Olhem, isto não são horas de estar a fazer barulho.
FADAS – Desculpa…?
ELFO – É. Daqui a pouco vem aqui um macaco correr-vos…!
FADA AZUL – Mas não estamos a fazer barulho.
FADA VERDE – Pois não…estamos a tocar e a cantar.
ELFO – Sim, tudo isso eu estou a ver…e tocam e cantam muito bem…mas não podem…vão ter que ir para outro lugar.
FADA AZUL (surpresa) – Mas…nós vimos sempre para aqui, e nunca nos mandaram embora.
FADA VERDE – Até gostam que estejamos aqui, para embalar.
FADA AZUL – Não nos podes mandar embora, se nos mandas embora, nem as crianças nem os adultos daqui dormem.
ELFO – Não tenho nada a ver com eles…eu também não durmo. (p.c) Nunca vos vi por aqui, como é que sempre vieram para aqui?
FADA AZUL – Mas vimos todas as noites.
FADA VERDE – Sim. Se não nos vês, é porque estás a dormir…
(Elfo boceja)
ELFO – Eu…não durmo…! Só toco e canto…se não faço isso, choro.
FADAS – Como?
FADA AZUL – Mas choras porquê?
(Elfo boceja outra vez e fica molengo)
ELFO – Porque…adoro tocar e cantar, e sinto-me muito sozinho, não tenho ninguém com quem falar…a não ser…enquanto toco e canto…assim falo com quem me ouvem, e não me sinto tão sozinho.
(As fadas riem).
FADA VERDE (sorri) – Sim, isso é uma excelente forma de falares com alguém, e deves falar muito, até com a tua viola…ou outros instrumentos que uses, mas as pessoas não estão sempre acordadas.
FADA AZUL – E tu também tens de dormir.
ELFO (quase a dormir) – Não…quero!
(As fadas riem, e o Elfo adormece)
FADA AZUL (ri) – Coitadinho…!
FADA VERDE (ri) – Caiu mesmo de sono.
FADA AZUL (ri) – Deve tocar tão bem que até o mandaram calar.
FADA VERDE (ri) – Pois. Ele tinha um ar meio maluco, mas também triste.
FADA AZUL – Sim, se ele se sente sozinho, não pode ser feliz…
FADA VERDE – Pois. (p.c) Mas será que o mandaram mesmo calar?
FADA AZUL – Acredito que sim. Se calhar não estava a tocar tão bem como nós, ou estaria a fazer barulho.
FADA VERDE – Ele nem queria dormir.
FADA AZUL – Pois…tinha medo.
FADA VERDE (ri) – Coitadinho…até fiquei com pena dele.
FADA AZUL – Achas que podemos ajudá-lo?
(O passarinho interrompe)
PASSARINHO (sorridente) – Desculpem interromper…queridas…belezas… estão a falar desse aí?
FADAS (sorriem) – Boa Noite.
FADA AZUL (sorri) – Sim, estamos a falar deste…pobre solitário.
FADA VERDE – Tu conhece-lo?
PASSARINHO (ri) – Sim…ele não funciona muito bem.
FADA AZUL (com pena) – Coitadinho…porquê?
PASSARINHO (ri) – Ele é estranho.
FADA VERDE – Ele disse que o mandaram calar…!
PASSARINHO – Claro. Porque a esta hora, e pouco antes, já estávamos todos a dormir, e ele só estava a fazer barulho.
FADAS – Ááááááhhhh…!
FADA AZUL – Por isso.
FADA VERDE – Mas ele estava a tocar bem e alto?
PASSARINHO (ri) – Não. Estava a fazer barulho, e a gritar…não sabe tocar nem cantar…só fazer barulho com os instrumentos e gritar, ainda por cima, desafinado. É horrível. Não tem nada a ver com a doçura das vossas melodias. (p.c) Ainda por cima, disse que não queria dormir, nem podia… (p.c) e que não podia deixar de tocar e cantar porque se não chorava.
FADA AZUL (ri) – Coitadinho!
PASSARINHO – Coitadinhos de nós, mas é, que queríamos dormir, e não conseguíamos com o barulho dele.
FADA VERDE (ri) – Ele chorava de solidão…porque pelo menos enquanto canta e toca, não pensa na solidão. E se não toca ou canta…pensa na solidão e fica muito triste.
PASSARINHO – Mas ele não sabe cantar nem tocar. É horrível ouvi-lo. (p.c) Nós até não nos importávamos que ele cantasse e tocasse…até podia ser a noite toda…já que não quer dormir…desde que o fizesse de uma forma agradável ao ouvido, e que fosse uma música suave, assim como a vossa. (p.c) Não queria dormir, mas está a dormir.
FADA AZUL (ri) – Adormeceu com a nossa música.
PASSARINHO (sorri) – O que vocês tocam é música.
FADAS (sorriem) – Obrigada.
PASSARINHO (sorri) – Bem, princesinhas…desejo-vos uma óptima noite, durmam bem…estou com soninho. (p.c) E continuem com a vossa música.
FADAS (sorriem) – Boa Noite.
(O passarinho afasta-se).
FADA AZUL – Olha, sabes uma coisa…?
FADA VERDE – O quê? (p.c) Tenho quase a certeza que sei o que vais dizer…mas…diz.
FADA AZUL – Vamos ajudar este desgraçado?
FADA VERDE (sorri) – Eu sabia que ias dizer isso. (p.c) Sim, vamos…eu pensei no mesmo. (p.c) Mas…como?
FADA AZUL – Já sei…vamos ensiná-lo a cantar e a tocar os instrumentos.
FADA VERDE (sorri) – Boa!
NARRADORA – As duas fadas tocam mais um pouco, e tudo fica em silêncio. O Elfo dorme a noite toda. No dia a seguir, as Fadas vão acordar o Elfo.
FADA AZUL – Elfo…
ELFO – Eu…onde estou?
FADA VEERDE – Estás na floresta de sempre.
ELFO – Mas…já é dia?
FADAS (sorriem) – Sim!
ELFO – E eu dormi?
FADAS (sorridentes) – Sim!
ELFO (preocupado) – Óh, não…não queria...não podia ter dormido…! Como é que esta coisa terrível foi acontecer…?
(As Fadas riem)
FADA AZUL (ri) – Que coisa terrível é que não te podia ter acontecido?
ELFO – O ter dormido…!
FADA VERDE – Mas não há nada de terrível nisso…
ELFO – Há…porque agora esqueci-me de todas as músicas…e agora…? (p.c) Não vou cantar, nem tocar…só chorar!
FADA AZUL – Deixa-te de coisas e anda connosco.
ELFO – Onde?
FADA VERDE – A um sítio.
ELFO – Qual?
FADA VERDE – Já vais ver…anda…!
ELFO – Não posso.
FADAS – Anda.
ELFO – Não posso!
FADA AZUL – Podes sim senhora.
ELFO – Mas…tenho de tocar, e cantar, se não…choro!
FADA VERDE – Vens connosco buscar novas músicas.
ELFO – Mas…novas músicas…não pode ser…! Eu não quero novas músicas…não sei tocar novas músicas…!
FADA AZUL – Claro que sabes tocar novas músicas.
ELFO – Eu…não!
FADA VERDE – Anda.
ELFO – Mas, mas…
FADA AZUL – À nossa frente já.
ELFO – Foram vocês que me roubaram as músicas…e agora querem devolver-mas é?
FADAS (a rir) – É.
NARRADORA – As Fadas dão as mãos ao Elfo, e seguem com ele para outro lado do bosque onde só há sol e muitas coisas bonitas da natureza. As Fadas começam a ensinar o Elfo a cantar como deve ser, e a tocar instrumentos correctamente. Num instante, o Elfo aprende, e as fadas batem palmas, felizes, e deliciadas com a rápida evolução do Elfo. E este inventa novas músicas, novas canções, muito feliz.
FADA VERDE (sorridente) – Tens uma voz tão bonita, tão cristalina…olha o que se estava a perder…!
ELFO – A sério…?
FADAS (sorriem) – Sim.
ELFO – Mas eu cantava!
FADA VERDE (sorridente) – Cantavas…mas agora cantas ainda melhor.
ELFO – Ai, eu cantava mal?
FADA VERDE – Não cantavas mal, mas puxavas muito pela voz, e um dia destes, ainda podias ficar sem ela.
ELFO – Era…? Que horror…! Se não tivesse voz para cantar, só podia tocar e chorar.
FADA AZUL – Ninguém te ia ouvir.
ELFO – Isso era terrível.
FADAS (sorriem) – Sim.
FADA AZUL (sorridente) – Esta noite, vais tocar connosco, naquele bosque, combinado?
ELFO (feliz e sorridente) – Sim, onde quiserem.
FADA VERDE (sorridente) – E agora…? Vais cantar, tocar ou chorar?
ELFO (pensativo) – Vou…cantar, tocar…e chorar…
FADAS – Chorar?
ELFO – Sim…quando tiver de parar de tocar.
FADAS – Errado.
FADA AZUL – Agora, não vais precisar de chorar, por estares sozinho.
ELFO – Não?
FADAS – Não.
FADA VERDE – Nós vamos estar sempre contigo…! A tocar, e a cantar.
ELFO – Então agora…não vou mais chorar…?
FADAS – Não.
ELFO – O que é que fizeram às minhas lágrimas? Roubaram-mas?
FADAS (riem) – Não…
FADA AZUL (sorri) – As tuas lágrimas continuam aí nos teus olhos.
ELFO – Ahhh…que susto!
FADA AZUL (sorri) – Não te roubamos as lágrimas, apenas não vais precisar de as deixar cair, porque não vais chorar mais por estares sozinho.
ELFO (sorridente e feliz) – Ááááhhh…! Que bom. (p.c) É muito triste estar sozinho.
FADA VERDE – Tem coisas boas estar sozinho, e há momentos em que precisamos de estar um pouco sozinhos.
ELFO – Ai, não quero estar mais sozinho.
FADA AZUL – Não penses que vamos atrás de ti, para a casa de banho…!
ELFO (ri) – Coitadas de vocês se fossem comigo para a casa de banho…!
(Todos riem).
FADA VERDE – Agora não queremos mais tristeza em ti.
ELFO (sorridente) – Ááááhhh…agora, estou acompanhado e feliz. (p.c) Óóóhhhh…muito obrigado.
FADA AZUL – Bem, chega de conversa. Vamos ensaiar outra vez.
ELFO – Sim.
NARRADORA – As Fadas e o Elfo ensaiam alegremente, riem, batem palmas uns aos outros, conversam e brincam pelo meio. Como combinado, á noite, as Fadas e o Elfo vão tocar e cantar doces melodias, músicas de embalar, para os habitantes, por todo o bosque, que os aplaudem. O casal de macacos está à janela.
MACACO (sorridente, surpreso) – Quem diria…aquele lateiro…que só fazia barulho…a tocar assim tão bonito.
MACACA – Era este rapaz que fazia aquele barulho todo…?
MACACO – Era!
MACACA (sorridente) – Não pode ser!
MACACO – Era mesmo!
MACACA (deliciada) – Ááááhhh…! Que bonito…parece um coro...Até os nossos diabinhos estão embalados…quase a dormir.
MACACO (sorridente) – Muito bom! (p.c) Parece que a paz regressou aqui ao nosso bosque.
MACACA (sorridente) – Sim…e ele é bem jeitoso…bonito…além de cantar de uma maneira tão… (suspira)
MACACO (ciumento) – Aaaaaiiii…! Vamos lá ver…! Comporta-te.
MACACA (ri) – Tu também aprecias outras macacas que passam por aqui, e outras bichas…pensas que eu não sei.
MACACO (embaraçado) – Mas…mas…óh minha querida, isso é…impressão tua…!
MACACA – É. (murmura) Pensas que eu nasci ontem…?
MACACO – Só tenho olhos para ti…só gosto de ti.
MACACA (ri) – Claro. (p.c) Olha, sabes o que me apetecia fazer?
MACACO (preocupado) – O quê…? Ir atrás dele…? (p.c) Beijá-lo…raptá-lo…? (p.c) Vai…!
MACACA (ás gargalhadas) – Não, tótinho…! Eu sei distinguir as coisas…admirar alguém é muito diferente de amar alguém.
MACACO (ciumento) – Acho bem. (p.c) Eu sou muito melhor que ele.
MACACA (ri) – Pois és. Claro que sim.
MACACO – Então o que é que te apetecia…?
MACACA (sorridente) – Dançar contigo…!
MACACO – Dançar comigo…? Mas…mas…será que estás grávida?
MACACA – O quê?
MACACO – Que desejo estranho…! Só tinhas isso enquanto estiveste grávida.
MACACA (chateada) – Que insensível…!
MACACO – Desculpa…eu danço contigo…Rapaz…chega aqui.
(O Elfo pára, olha para ele)
ELFO – Chamou?
MACACO – Sim.
ELFO (sorri) – Vai – me mandar embora outra vez?
MACACO – Não…por favor…toque aí qualquer coisa, porque a minha mulher quer dançar…!
ELFO (sorridente) – Muito bem…com certeza que toco…será uma honra…! (p.c) Amigas…por favor…!
NARRADORA – A macaca abre um sorriso de orelha a orelha, bate palminhas, saltita…As fadas e o Elfo tocam uma linda e doce melodia. O macaco estende a mão para a macaca, e os dois dançam maravilhosamente bem, apaixonados. As fadas e o elfo estão maravilhados, e tocam sorridentes…no fim batem palmas.
MACACOS (sorridentes) – Muito obrigada…obrigado.
ELFO (sorridente) – Muito obrigado nós, e muitos parabéns…que o vosso amor seja sempre assim tão bonito, verdadeiro…e musical.
MACACA (sorridente) – Muito obrigada. E muitos parabéns…! Tocam que dá gosto. Passem sempre por aqui, está bem?
ELFO E FADAS (sorridentes) – Com todo o gosto.
NARRADORA - O Elfo e as Fadas continuam a tocar suavemente, e toda a gente sai das casas, maravilhada, apaixonada e embalada pelas músicas, para o pátio e todos os casais dançam ao som das músicas. Que lindo! As Fadas e o Elfo até deixam escapar umas lágrimas de felicidade e de encanto ao ver aquele momento. No fim aplaudem-se uns aos outros.   
PASSARINHO (sorridente, surpreso) – Uaaaauuu…o que é que aconteceu aqui?
MACACO (ri) – O lateiro barulhento, parece que aprendeu a tocar e a cantar.
PASSARINHO (sorridente) – Que mudança…
MACACO – Como é que pode ser?
PASSARINHO – Eu, suspeito que tenham sido as fadas.
MACACA (sorridente) – Claro que foram elas…quem mais…? (p.c) Tinha que ter toque feminino.
MACACO (sorri) – Mas que belo trabalho.
PASSARINHO (sorri) – Que maravilha…!
ELFO (sorridente) – Agora…toco com o coração…! E não estou sozinho…! (p.c) Muito obrigado, e muito boa noite a todos.
MACACA (sorri) – Ááááhhh…então ele queria afugentar a solidão, ao tocar e ao cantar…para que alguém reparasse nele.
FADAS (sorriem) – Sim!
FADA AZUL – Ele tem uma voz linda, mas não cantava com o coração.
FADA VERDE (sorri) – Nós ensinamo-lo a cantar e a tocar com o coração.
MACACA (sorridente) – Que lindo!
NARRADORA – Pois é! Às vezes julgamo-nos uns aos outros, por fazermos coisas que nos parecem um pouco estranhas, ou absurdas…parecem maluquinhos…mas não devíamos julgar, gozar ou humilhar quando vemos pessoas com comportamentos esquisitos, porque elas têm a sua razão…como quebrar a solidão. Em vez de julgarmos, deveríamos todos contribuir para que não houvesse pessoas a sentir-se sozinhas. Porque a solidão é muito triste. Devíamos ser todas amigas, e conviver, fazer coisas juntos…. Não se esqueçam…! Todos juntos viveremos num mundo melhor, nem que cada um faça uma coisa pequena pelo outro.

FIM
Lálá
(3/Novembro/2012)