Era uma vez um pastor ainda jovem, que não tinha completado os estudos, só até ao nono ano, porque queria ajudar os pais, retribuindo o amor e o cuidado que lhe tinham dado, e gostava da vida no campo.
Levava uma grande manada de ovelhas, vacas, bois, cabritos, vitelas, cavalos, burros e o cão, a pastar próximo da sua casa. Saía de manhã muito cedo, antes dos primeiros raios de sol, ainda via as estrelas pelo caminho, enquanto os pais, os avós e os tios, ficavam a tratar da quinta, a preparar os produtos da Terra com todo o carinho.
Os vizinhos faziam o mesmo. Lá ia ele, caminho fora, com uma viola que os pais lhe tinham oferecido, o telemóvel para gravar as músicas que tocava, fotografar coisas bonitas e um bloco de notas. O seu fiel amigo já sabia o que fazer, o gado espalhava-se por todo o terreno, pastava livremente, os pequenotes saltitavam, brincavam, corriam, alimentavam-se.
Bem atestados, deitavam-se, e o jovem apreciava os animais, sentava-se debaixo de uma árvore, deliciava-se com a paisagem, o gado, e muitas vezes, escrevia no seu bloco de notas, coisas que lhe surgiam na mente, pensamentos, emoções, ideias, fazia alguns desenhos, escrevia poemas, e tocava uns acordes na viola. O gado já estava habituado e não ligava.
Numa das manhãs, o jovem começou a compor uma música, com sons tristes. O gado para tudo o que estava a fazer e olha para ele. Nunca tinha acontecido antes. À medida que tocava, alguns animais sentiram tristeza na música.
Aproximaram-se, como se percebessem que o jovem estava triste, e o cão foi o primeiro a uivar, deitando-se nas pernas dele e lambendo-lhe as mãos. O jovem acaricia-o, sorridente. Os outros animais voltaram às suas atividades, porque como o viram sorrir, pensaram que não estaria triste.
O jovem escreve várias frases, com o cão ao colo, e compõe uma música triste. Misteriosamente, o gado fica quase imóvel, a ouvi-lo, e a olhar para ele, choram com lágrimas, baixaram as cabeças, e soluçam como se fossem pessoas, a quem a música lhes tocou na alma.
O jovem nem queria acreditar no que estava a ver. Animais a chorar. Seria da sua música? Mas os animais não têm sentimentos como as pessoas. Achava ele! O gado aproximou-se, circundaram-no, e cada um fez-lhe carícias, encostando as cabecinhas à cara do jovem, lambendo-lhe a cara, pondo as patinhas à volta do pescoço, e esfregando-se nele, ele ria e retribuía o carinho, outros, deitavam a cabeça nas pernas dele, e ele acariciava-os, sorrindo.
- Obrigado, queridos animais! Sim, sabem uma coisa, nós seres humanos, temos dias em que nos sentimos mais tristes, outros mais alegres, às vezes tristes e alegres no mesmo dia, outras vezes, nem sabemos porquê...foi o que saiu! Mas...Eu estou a ver bem? Vocês estão a chorar? Com a minha música? Como pode ser? Porquê?
Cada um responde à sua maneira, com os seus sons.
- Agora...vou tocar uma música alegre para ver o que acontece! - diz o jovem
Os animais olham para ele, expectantes. Ele começa a tocar uma música muito diferente, alegre, com ritmo, canta, e os animais começam todos aos saltos de alegria, correm eufóricos, como se de repente ficassem ligados à tomada, dançam como se fossem pessoas, parecem conversar e rir entre si, uns com os outros, e dançar uns com os outros.
O jovem ri à gargalhada, deliciado, mas ao mesmo tempo muito surpreso.
- O que é que aconteceu aqui?
Experimenta novamente. Toca a melodia triste, e os animais param, vão ter com ele, a soluçar e a chorar, ele filma desde o início, e percebe que os bichos têm mesmo lágrimas. Esfregam-se nele, deitam-se no colo dele, abraçam-no com as patas, encostam as cabeças à sua cara, e recebem mimos.
O gado não sai da beira dele. Toca a melodia alegre, e filma, com os animais completamente eufóricos, cheios de energia, dão enormes saltos, fazem barulhos que parece que riem, encostam-se uns aos outros, parece que dançam como as pessoas, correm pelo campo, numa felicidade nunca vista com uma expressão que dava gosto.
O jovem dá umas belas gargalhadas, e escreve. O gado acalma, mas sempre a olhar para ele, para ver se a seguir vem mais alguma coisa, o rapaz toca outra melodia, com uma parte triste, e filma, o gado triste, com lágrimas nos olhos; mas tinha outra parte alegre, e os animais voltam a fazer uma festa.
Hora de recolher, o cão junta todos, e vão para casa. O jovem conta aos familiares, o que aconteceu. Os familiares acham que ele estava a imaginar, e riram. No dia seguinte, foram ver, como não tinham acreditado, e até o próprio jovem não sabia se nesse dia os animais iam fazer o mesmo, mas tentou.
O gado estava a pastar, ele toca a música triste, e os animais fazem o mesmo, soluçam, choram com lágrimas, vão para a beira dele, lambem-no, esfregam-se nele, encostam as cabeças na cara dele, põem as patas como se estivessem a abraçá-lo e uma expressão triste. Os adultos também não queriam acreditar, mas viram que era verdade, ficaram de boca aberta.
Toca a música alegre, e os animais voltam a fazer o que fizeram no dia anterior, a dar grandes saltos e a falar na sua linguagem própria, a correr alegremente, até parecem estar a sorrir, vão uns contra os outros, encostam-se, como se estivessem a dançar, numa alegria nunca antes vista, nem imaginada.
O jovem e a família nem querem acreditar, e desatam à gargalhada.
- Como é possível? - pergunta a mãe
- Não sei, eu perguntei o mesmo! - diz o jovem
- É incrível, parecem os humanos, quando ouvem músicas mais tristes, e que lhes lembram coisas tristes também, e nas músicas alegres, parecem ficar tão felizes, que dá gosto! Até dá a impressão que se riem. - diz o Avô
- Tão queridos, na música triste, vieram todos ter contido, dar-te mimos, e estavam a chorar, parece que sentiram a música! - diz a Avó
- Pois foi! - dizem todos
- É verdade, já ontem fizeram isto, e quando toco a música alegre, ficam naquele estado!
Todos riem.
- Essa viola deve ter qualquer coisa.- diz uma tia
- Não sei o quê! - diz o jovem
- Gostavas de ir estudar música? - pergunta um tio
- Sim. - diz o jovem
- Quando eu for à cidade, muito em breve, vou inscrever-te numa escola de música. Aceitas?
- Com muito gosto! Mas...papá...mamã...avós...?!
- O que tem? - perguntam todos
- Vocês deixam? - pergunta o jovem
- Claro que sim, rapaz! - dizem em coro
- Mas e...para vos ajudar? - pergunta o jovem
- Não te preocupes com isso! - dizem todos
- Segue o teu sonho, nós cá nos arranjamos.
O rapaz fica emocionado, a sorrir, abraça cada um dos elementos da família, beija-os e agradece. E assim foi, o tio levou-o, inscreveu-o numa escola de música, o rapaz não cabia nele de felicidade. Nas horas vagas, estudava e guardava na mesma o gado, treinando o que aprendia, com os animais, e estes reagiam.
As reações dos animais às suas músicas e à viola, deixavam-no encantado, e a rir à gargalhada. Parecia que mostravam agrado, desagrado, alegria, tristeza, sensibilidade, choravam, demonstravam e davam carinho ao jovem, riso, carinho, e parecia que sentiam a música.
O gado passou a ser o seu público, e ao mesmo tempo, uma preciosa ajuda para ele compor músicas, dependendo das reações dos animais ao que ele cantava e tocava. Tornou-se num cantor e tocador de viola muito famoso, mas continuava humilde e a ajudar a família, com um enorme carinho por todos e pelos animais, uma grande simplicidade e simpatia, por isso, era adorado por todos, na escola.
Ele convidava os amigos para tocarem para o gado, e este reagia, tal como às músicas do jovem. Todos adoravam e divertiam-se à grande, compunham músicas em conjunto, riam muito, conversavam, trocavam impressões, brincavam.
O jovem dava muito valor à família, de quem também era o orgulho! Começou a dar espetáculos para a aldeia, muito aplaudido e apreciado, mesmo com os amigos, depois, tocavam nas ruas, para juntar algum dinheiro, até que uma editora de música, ouviu-os e convidou-os para gravarem as suas músicas.
O jovem pediu para que colocassem vídeos que ele tinha feito dos animais, e das diferentes reações às suas musicas. A editora aceitou e adorou. Foi um sucesso de vendas, e todo o público ouvinte, queria conhecer os animais que reagiam às músicas, como se fossem pessoas.
Iam á quinta, ver os animais, e os jovens tocavam ao vivo, para o gado, para os visitantes, sempre com reações que deliciava o público.
A viola seria mesmo mágica, ou seria o pastor, com a sua bondade, o seu coração humilde e simples? O que acham? Acham que os animais sentem e reagem às músicas como nós? A música também vos faz ficar felizes, e tristes, como os animais do jovem?
Podem deixar nos comentários, se quiserem.
FIM
Lara Rocha
7/Março/2026